quinta-feira, 27 de outubro de 2011

"O Que Você Quer Saber De Verdade" - Clipe Oficial



Vai sem direção
Vai ser livre
A tristeza não
Não resiste
Jogue seus cabelos no vento
Não olhe pra trás
Ouça o barulhinho que o tempo
No seu peito faz
Faça sua dor dançar
Atenção para escutar
Esse movimento que traz paz
Cada folha que cair
Cada nuvem que passar
Deixa a terra respirar
Pelas portas e janelas das casas
Atenção para escutar
O que você quer saber de verdade
                                                                                            Arnaldo Antunes

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Pois a questão-chave é: Sob que máscara retornará o recalcado?





Sonho o poema de arquitetura ideal
Cuja própria nata de cimento
Encaixa palavra por palavra, tornei-me perito em extrair
Faíscas das britas e leite das pedras.
Acordo;
E o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
Acordo;
O prédio, pedra e cal, esvoaça
Como um leve papel solto à mercê do vento e evola-se,
Cinza de um corpo esvaído de qualquer sentido
Acordo, e o poema-miragem se desfaz
Desconstruído como se nunca houvera sido.
Acordo! os olhos chumbados pelo mingau das almas
E os ouvidos moucos,
Assim é que saio dos sucessivos sonos:
Vão-se os anéis de fumo de ópio
E ficam-me os dedos estarrecidos.
Metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
Sumidos no sorvedouro.
Não deve adiantar grande coisa permanecer à espreita
No topo fantasma da torre de vigia
Nem a simulação de se afundar no sono.
Nem dormir deveras.
Pois a questão-chave é:
Sob que máscara retornará o recalcado?



Entenda o conceito de recalque e retorno do recalcado em:

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Último dia do mundo - Fúria, ruína e razão no grande terremoto de Lisboa de 1755





O primeiro abalo atingiu Lisboa na manhã do dia 1º de novembro, de 1755 - Dia de Todos os Santos. Minutos depois, outro ainda mais forte arrasou a cidade, seguido por um terceiro. Lisboa, uma das capitais mais imponentes da Europa, foi destruída em menos de 15 minutos. Então um tsunami arrastou milhares de pessoas e um vento implacável espalhou os focos de incêndio provocados pelos tremores.
O jornalista Nicholas Shrady revela, em O Último Dia do Mundo, que a reação ao desastre natural, mais do que a tragédia em si, é o que ainda hoje provoca grande fascínio. O terremoto em Portugal, na capital mais católica do continente, abalou as certezas intelectuais e religiosas que na época dominavam a Europa do Iluminismo.
Até 1755, as aflições que a natureza impunha sobre a humanidade eram consideradas obra de um Deus furioso - o homem estava pagando por seus pecados e fraquezas. Após a catástrofe, o lugar de Deus nas relações humanas começou a ser questionado. Voltaire, Pope, Kant e Rousseau, entre outras figuras eminentes, fizeram do acontecimento um veículo para expressar suas ideias iluministas. O grande terremoto e a subsequente reconstrução de Lisboa também deram origem a reformas sociais e econômicas memoráveis, ao planejamento urbano moderno e ao nascimento da sismologia.
"Perante o monumental alcance da destruição, o rei, que tinha 40 anos de idade e era mais propenso aos tons estrondosos da ópera e à alegria da caça do que ao trabalho obstinado de governar seu reino, estava perplexo. Mensageiros chegaram durante toda a manhã, trazendo relatos cada vez mais explícitos das cenas infernais de terror e ruína, do incalculável número de mortos e da chegada do Apocalipse. Impotente, ele fez exatamente o que nenhum monarca jamais deveria fazer: encolheu-se de medo", escreve o autor.
No entanto, o Estado português, com a ajuda do Santo Ofício da Inquisição, se esforçava para garantir que as mentes portuguesas não fossem influenciadas por ideais que pudessem abalar sua fé. Somente um pequeno grupo parecia prestar atenção nas inovações que emergiam em países como França e Inglaterra. Entre esses esclarecidos, estava José de Carvalho e Melo, a quem o rei confiou a reconstrução de Lisboa:
"Levado à presença do rei, Carvalho ficou chocado com a cena de confusão e piedosas invocações, e por ver o monarca num estado tão evidente de angústia. O diálogo que se seguiu teve enorme significado e definiu a resposta para a crise com a precisão de um aforismo.
- O que deve ser feito para enfrentar esta imposição da justiça divina? - perguntou o rei. - Enterrar os mortos e alimentar os vivos - respondeu Carvalho.
A declaração era exatamente o que o rei prostrado desejava ouvir."
Em O Último Dia do Mundo, o autor revela como, inspirado nos grandes filósofos iluministas da época, Carvalho fez com que a razão triunfasse sobre o obscurantismo religioso. Assim, enquanto muitos rezavam, ele rapidamente enviou tropas para apagar o fogo, buscar sobreviventes em meio às ruínas e controlar os saqueadores. Lisboa seria reconstruída, e ressurgiria como uma cidade moderna, de ruas largas, com sistemas de esgoto e escoamento adequado.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Umberto Eco - Cemitério de Pagra



Personagens históricos em uma delirante trama fantástica. 
Trinta anos após O nome da rosa, Umberto Eco nos envolve, mais uma vez, em uma narrativa vertiginosa, na qual se desenrola uma história de complôs, enganos, falsificações e assassinatos, em que encontramos o jovem médico Sigmund Freud (que prescreve terapias à base de hipnose e cocaína), o escritor Ippolito Nievo, judeus que querem dominar o mundo, uma satanista, missas negras, os documentos falsos do caso Dreyfus, jesuítas que conspiram contra maçons, Garibaldi e a formação dos Protocolos dos Sábios de Sião. 
Curiosamente, a única figura de fato inventada nesse romance é o protagonista Simone Simonini, embora, como diz o autor, basta falar de algo para esse algo passar a existir...

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Fernando Botero no Rio



Fernando Botero doou ao Museu Nacional da Colômbia uma série de obras nas quais expressa o seu compromisso com o drama e a violência recorrentes no país. Longe de pensar em benefícios econômicos, o artista quer que as obras pertençam à nação e sejam um convite à reflexão sobre as trágicas circunstâncias que temos enfrentado nas últimas décadas” – Maria Victoria Robayo, diretora do Museu Nacional da Colômbia.

Depois do sucesso da edição realizada em 2007 no Memorial da América Latina, em São Paulo, quando foram recebidos 25 mil visitantes em apenas um mês de mostra, a exposição “Dores da Colômbia” está de volta ao País. Iniciou seu percurso em março na Caixa Cultural Brasília, tendo obtido grande sucesso. A segunda fase do projeto, realizada entre 19 de maio a 14 de agosto no Museu Oscar Niemeyer em Curitiba recebeu 4.500 visitas. Em sua abertura, a presença de personalidades e autoridades ligadas às áreas culturais e artísticas da América Latina, como Maria Elvira Pombo, Embaixadora da Colômbia no Brasil; Denise Carvalho, Proprietária da Aori Produções Culturais e responsável pela exposição no Brasil; Sandra Fogagnoli – Planejamento cultural do Museu Oscar Niemeyer; Paulino Viapiana, Secretário de Cultura do Paraná; Isabel Nascimento, Gerente regional da Caixa Econômica Federal.  A partir de 06 de setembro, “Dores da Colômbia”, inaugura sua terceira etapa Caixa Cultural Rio de Janeiro.

A iniciativa reúne 67 obras doadas pelo artista colombiano Fernando Botero ao Museu Nacional da Colômbia entre 2004 e 2005. “Sempre quis trazer essa coleção de volta ao Brasil. O conjunto dessa obra mostra como a arte pode denunciar a violência e propõe uma reflexão sobre a sociedade”, diz a produtora executiva da Aori, Denise Carvalho, responsável pelo retorno da mostra ao País.

As seis aquarelas, 36 desenhos e 25 pinturas, que já percorreram várias cidades européias e latino-americanas, mostram os abusos sofridos pelo povo colombiano como consequência da ação de grupos guerrilheiros, políticos e paramilitares. O conflito que resultou no exílio de 1,5 milhão de colombianos nas últimas décadas é ao mesmo tempo um movimento social que busca as bases para a busca da justiça no país.

Embora retrate uma situação trágica de um período bem determinado, Botero criou as composições com pinceladas de cores vibrantes capazes de atrair e envolver cada vez mais pessoas de todo o mundo no drama colombiano e de outros países que vivem conflitos sociais.

“Dores da Colômbia” dialoga com uma corrente artística que vincula a arte à política. Dentro desse contexto encontramos outros mestres importantes que imprimiram discurso e fatos históricos em suas telas. Francisco Goya, com “Desastres da Guerra” e Pablo Picasso com “Guernica”, recriam a sua maneira, atos cometidos durante períodos de turbulência vividos em seus países.



Visitação: de 06 de setembro a 30 de outubro de 2011
Local: Caixa Cultural Rio de Janeiro, Av. Almirante Barroso, 25, Centro - Rio de Janeiro – RJ
De terça a sábado, das 10h às 22h e domingo, das 10h às 21h.



Fonte:Folheto de divulgação da exposição.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Por Acaso Gullar...


Nascido em São Luis do Maranhão, em 1930, Ferreira Gullar, procurou apontar em sua obra a problemática da vida política e social do homem brasileiro.
De uma forma precisa e profundamente poética traçou rumos e participou ativamente das mudanças políticas e sociais brasileiras, o que lhe levou à prisão juntamente com Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1968 e posteriormente ao exílio em 1971 .
Poeta, crítico, teatrólogo e intelectual, Ferreira Gullar entra para a história da literatura como um dos maiores expoentes e influenciadores de toda uma geração de artistas dos mais diversos segmentos das artes brasileiras.
Nesse documentário Gullar fala um pouco sobre sua obra e pode-se ouvir alguns dos seus poemas na voz de Maria Bethânia.




segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Vergänglichkeit



SOBRE A TRANSITORIEDADE

Sigmund Freud


Não faz muito tempo empreendi, num dia de verão, uma caminhada através de campos sorridentes na companhia de um amigo taciturno e de um poeta jovem mas já famoso. O poeta admirava a beleza do cenário à nossa volta, mas não extraía disso qualquer alegria. Perturbava-o o pensamento de que toda aquela beleza estava fadada à extinção, de que desapareceria quando sobreviesse o inverno, como toda a beleza humana e toda a beleza e esplendor que os homens criaram ou poderão criar. Tudo aquilo que, em outra circunstância, ele teria amado e admirado, pareceu-lhe despojado de seu valor por estar fadado à transitoriedade.

A propensão de tudo que é belo e perfeito à decadência, pode, como sabemos, dar margem a dois impulsos diferentes na mente. Um leva ao penoso desalento sentido pelo jovem poeta, ao passo que o outro conduz à rebelião contra o fato consumado. Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada. Seria por demais insensato, por demais pretensioso acreditar nisso. De uma maneira ou de outra essa beleza deve ser capaz de persistir e de escapar a todos os poderes de destruição.

Mas essa exigência de imortalidade, por ser tão obviamente um produto dos nossos desejos, não pode reivindicar seu direito à realidade; o que é penoso pode, não obstante, ser verdadeiro. Não vi como discutir a transitoriedade de todas as coisas, nem pude insistir numa exceção em favor do que é belo e perfeito. Não deixei, porém, de discutir o ponto de vista pessimista do poeta de que a transitoriedade do que é belo implica uma perda de seu valor.

Pelo contrário, implica um aumento! O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição. Era incompreensível, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. Tampouco posso compreender melhor por que a beleza e a perfeição de uma obra de arte ou de uma realização intelectual deveriam perder seu valor devido à sua limitação temporal. Realmente, talvez chegue o dia em que os quadros e estátuas que hoje admiramos venham a ficar reduzidos a pó, ou que nos possa suceder uma raça de homens que venha a não mais compreender as obras de nossos poetas e pensadores, ou talvez até mesmo sobrevenha uma era geológica na qual cesse toda vida animada sobre a Terra; visto, contudo, que o valor de toda essa beleza e perfeição é determinado somente por sua significação para nossa própria vida emocional, não precisa sobreviver a nós, independendo, portanto, da duração absoluta.

Essas considerações me pareceram incontestáveis, mas observei que não causara impressão quer no poeta quer em meu amigo. Meu fracasso levou-me a inferir que algum fator emocional poderoso se achava em ação, perturbando-lhes o discernimento, e acreditei, depois, ter descoberto o que era. O que lhes estragou a fruição da beleza deve ter sido uma revolta em suas mentes contra o luto. A idéia de que toda essa beleza era transitória comunicou a esses dois espíritos sensíveis uma antecipação de luto pela morte dessa mesma beleza; e, como a mente instintivamente recua de algo que é penoso, sentiram que em sua fruição de beleza interferiam pensamentos sobre sua transitoriedade.

O luto pela perda de algo que amamos ou admiramos se afigura tão natural ao leigo, que ele o considera evidente por si mesmo. Para os psicólogos, porém, o luto constitui um grande enigma, um daqueles fenômenos que por si sós não podem ser explicados, mas a partir dos quais podem ser rastreadas outras obscuridades. Possuímos, segundo parece, certa dose de capacidade para o amor — que denominamos de libido — que nas etapas iniciais do desenvolvimento é dirigido no sentido de nosso próprio ego. Depois, embora ainda numa época muito inicial, essa libido é desviada do ego para objetos, que são assim, num certo sentido, levados para nosso ego. Se os objetos forem destruídos ou se ficarem perdidos para nós, nossa capacidade para o amor (nossa libido) será mais uma vez liberada e poderá então ou substituí-los por outros objetos ou retornar temporariamente ao ego. Mas permanece um mistério para nós o motivo pelo qual esse desligamento da libido de seus objetos deve constituir um processo tão penoso, até agora não fomos capazes de formular qualquer hipótese para explicá-lo. Vemos apenas que a libido se apega a seus objetos e não renuncia àqueles que se perderam, mesmo quando um substituto se acha bem à mão. Assim é o luto.

Minha palestra com o poeta ocorreu no verão antes da guerra. Um ano depois, irrompeu o conflito que lhe subtraiu o mundo de suas belezas. Não só destruiu a beleza dos campos que atravessava e as obras de arte que encontrava em seu caminho, como também destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que consideráramos imutáveis.

Não pode surpreender-nos o fato de que nossa libido, assim privada de tantos dos seus objetos, se tenha apegado com intensidade ainda maior ao que nos sobrou, que o amor pela nossa pátria, nossa afeição pelos que se acham mais próximos de nós e nosso orgulho pelo que nos é comum, subitamente se tenham tornado mais vigorosos. Contudo, será que aqueles outros bens, que agora perdemos, realmente deixaram de ter qualquer valor para nós por se revelarem tão perecíveis e tão sem resistência? Isso parece ser o caso de muitos de nós; só que, na minha opinião, mais uma vez, erradamente. Creio que aqueles que pensam assim, de e parecem prontos a aceitar uma renúncia permanente porque o que era precioso revelou não ser duradouro, encontram-se simplesmente num estado de luto pelo que se perdeu. O luto, como sabemos, por mais doloroso que possa ser, chega a um fim espontâneo. Quando renunciou a tudo que foi perdido, então consumiu-se a si próprio, e nossa libido fica mais uma vez livre (enquanto ainda formos jovens e ativos) para substituir os objetos perdidos por novos igualmente, ou ainda mais, preciosos. É de esperar que isso também seja verdade em relação às perdas causadas pela presente guerra. Quando o luto tiver terminado, verificar-se-á que o alto conceito em que tínhamos as riquezas da civilização nada perdeu com a descoberta de sua fragilidade. Reconstruiremos tudo o que a guerra destruiu, e talvez em terreno mais firme e de forma mais duradoura do que antes.



Este ensaio foi escrito em novembro de 1915, a convite da Berliner Goetherbund (Sociedade Goethe de Berlim) para um volume comemorativo lançado no ano seguinte sob o título de Das Land Goethes (O País de Goethe). O ensaio abrange um enunciado da teoria do luto contido em ‘Luto e Melancolia’ (1971e), que Freud escrevera alguns meses antes, mas que só foi publicado dois anos depois.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Sugestões para atravessar agosto

Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro — e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir. Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.

Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural,sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos ou precauções — úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia, categoria originalidade… Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo zap!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu — sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antônio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún, ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques — tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informação para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas — coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. E isso mesmo; evasão, escapismo assumidos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema., Mudar de assunto digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco.
O Estado de S. Paulo, 6/8/99

Caio F. Abreu in Pequenas Epifanias.

domingo, 17 de julho de 2011

Desafio Literário

Respondendo ao desafio literário proposto por Alan Tykhé do blog Pensamentos e Fragmentos:



1 - Existe um livro que você leria e releria várias vezes?
Sim.  Crime e Castigo – Dostoievsk

2 - Existe um livro que você começou a ler, parou, recomeçou, tentou e tentou, mas nunca conseguiu ler até o final?
Sim, O Ser e o Nada, Jean Paul Sartre, mas não desisti.

3 - Se você escolhesse um livro para ler para o resto da sua vida, qual seria ele?
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa.

4 - Que livro você gostaria de ter lido, mas que, por algum motivo, nunca leu?
A Divina Comédia, Dante Alighieri

5 - Qual livro que você leu cuja "cena final" você jamais conseguiu esquecer?
O Vermelho e o Negro, Sthendal. Tenho vontade de chorar de emoção só em lembrar.

6 - Você tinha o hábito de ler quando criança? Se lia, qual tipo de leitura?
Não, até que com 12 anos li A Metamorfose, de Kafka, e nunca mais parei.


7 - Qual o livro que você achou chato, mas ainda assim o leu até o final?
Germinal , de Émile Zola

8 - Indique alguns dos seus livros favoritos.
A cerimônia do adeus, Simone de Beauvoir
A condição humana, Hannah Arendt
A Metamorfose, Franz Kafka
A Montanha Mágica, Thomas Mann
A Náusea, Jean-Paul Sartre
A Paixão Segundo GH, Clarice Lispector
As Benevolentes, Jonathan Littell
As Palavras e as Coisas, Michel Foucault
Assim Falou Zaratustra,Friedrich Nietzsche
Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski
Crônica da Casa Assassinada, Lúcio Cardoso
Decamerão,Giovanni Boccaccio
Dom Casmurro, Machado de Assis
Fragmentos de Um Discurso Amoroso ,Roland Barthes
Grande Sertão: Veredas, Joao Guimaraes Rosa
Hamlet, Shakespeare
Lobo da Estepe, Herman Hesse
Morangos Mofados, Caio Fernando Abreu
Mrs. Dalloway, Virginia Woolf
O Banquete, Platão
O Cânone Ocidental, Harold Bloom
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago
O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde
O Vermelho e o Negro, Sthendal
Otelo, Shakespeare
Shakespeare - A Invenção do Humano, Harold Bloom
Verdade Tropical ,Caetano Veloso
É isto um Homem - Primo Levi

9 - Qual livro você está lendo no momento?
Clarice, de Benjamim Moser
A Solidão do Diabo, de Paulo Bentancur

Forte abraço ao querido Alan, obrigado pelo desafio.
Deixo o desafio para todos os blogueiros que amam livros. 

sábado, 16 de julho de 2011

A Ira de Deus?

Em novembro de 1755, no auge da riqueza levada pelo ouro e por outras preciosidades do Brasil Colônia, Lisboa, capital de Portugal, se transforma em palco de de um dos maiores terremotos registrados em todos os tempos. A magnitude do tremor seria registrada hoje acima de 9 na Escala Richter. Até o Caribe sentiu efeitos do terremoto. Riquezas foram arruinadas, o mercado foi interrompido, a economia ficou arrasada.
O terremoto que arrasou Lisboa em 1755 inspira o livro do historiador britânico Edward Paice. Em entrevista ao Milênio, o autor esclarece como foi o terremoto e a tsunami que arrasaram a capital portuguesa e mudaram toda a História. O historiador compilou todos os fatos e publicou no livro "A Ira de Deus"

sábado, 9 de julho de 2011

Sob as Estrelas da Bahia


Sentados lado a lado, cada um em uma ponta de um sofá bege de listras marrons no camarim de um estúdio fotográfico em Salvador (BA), Caetano Veloso, 68, e Gal Costa, 65, têm 50 anos de história para lembrar. Caetano senta-se reto, atento; Gal está à vontade, com as costas fundas no sofá. Passeando entre os muitos pontos de intersecção em duas carreiras sempre próximas e distantes, falam dirigindo-se tão frequentemente um ao outro quanto a mim, sentado em uma cadeira de frente para os dois. Enquanto reconstroem memórias em par, completam as frases mútuas com intimidade além daquela de namorados ou irmãos, mas de amizades que se orbitam, não importa quantas vezes o planeta gire. Se amizade é identificação, confiança, comunhão de raízes, empatia ilimitada, amigos são mais do que a família que escolhemos, são aqueles que continuam nos conhecendo quando mudamos.

Alguém entra na sala, traz água de coco para Gal e sai. Caetano cruza as pernas embaixo de si, no sofá. Estamos aqui por uma ocasião especial: Caetano, vindo de uma fase especialmente carregada de frescor, depois dos discos Cê e Zii e Zie (e um ao vivo com Maria Gadú, vá lá), se viu tomado por inspiração para desencadear um processo semelhante com Gal, compondo todo um disco para ela e direcionando as gravações (se nada mudar, o álbum, previsto para setembro, deverá se chamar Doce). A última vez que ela entrou em estúdio para fazer um álbum foi em 2005 - Hoje, lançado pela gravadora Trama. O novo disco terá o apoio da gravadora Universal, que também lança os discos de Caetano e recentemente compilou os LPs de Gal gravados entre 1967 e 1983 em uma caixa com 16 CDs.

Gal e Caetano estão apreensivos, em pleno processo de finalização do álbum: faltam poucos dias para terminarem de registrar as vozes definitivas no estúdio de Carlinhos Brown, no Candeal. As bases já foram gravadas no Rio com a ajuda de Moreno Veloso - filho de Caetano e afilhado de Gal - e com participações de jovens músicos cariocas. Assim que o último rec virar stop, os arquivos de áudio ganharão mixagem, masterização, título e capa. Hoje, sábado nublado de junho, estamos na Bahia para falar do passado no presente - Bahia que já existia em mim através das músicas e agora se materializa no momento vivido e no cenário de lembranças do compositor e da cantora.

"O Caetano para mim é muito importante por tudo que a gente viveu e conviveu", Gal começa. "Por tudo que ele compôs, tantas músicas que ele fez para mim, direcionadas a mim, falando para mim. Eu adoro as canções de Caetano. Ele é o compositor que melhor escreve para mim, para a minha voz, para mim mesmo. A gente tem uma identificação musical. Neste momento, Caetano fazer este trabalho comigo é maravilhoso. É muito importante historicamente e emocionalmente."

Caetano, propulsor da ideia há um ano e meio, quando pela primeira vez contou a Gal do novo projeto, explica que a vontade deste álbum nasceu de pensar na história da presença de ambos na música e na história da própria música brasileira. "Gal tem uma qualidade de emissão vocal muito especial e um papel histórico muito importante, e as duas coisas estavam relativamente subvalorizadas nos últimos tempos", reflete. "Tenho necessidade de ter uma visão histórica mais equilibrada, e isso me pareceu como uma necessidade para mim mesmo e tenho certeza que para os outros também. Então fiquei com desejo de fazer o repertório e produzir um disco todo para Gal. Me interesso muito por fazer este disco agora, para reequilibrar a visão histórica."

 Gal, entretanto, deixa claro que em nenhum momento a ideia foi homenagear o que houve, mas sim o que ainda há para haver. "Não vai ter nada a ver com nenhum disco que eu já fiz na vida, nem com nenhum disco que ele já fez na vida", explica. "Vai ser uma coisa nova, repertório novo, tudo novo, mas é claro que tem a ver com passado porque a nossa história está impregnada na gente."


Materia publicada na edição 58 da Rolling Stone Brasil, nas bancas a partir de 8 de julho.
Jornalista: Ronaldo Evangelista

Chico Buarque

A internet possibilita que por trás do anonimato, falemos mal de quem quer que seja,
mas quem descobriu isso há pouco e ficou absolutamente chocado foi o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda.

Praticamente uma unanimidade nacional da MPB (como escritor, andou atraindo críticas injustas ultimamente), detentor de uma legião gigantesca de fãs ardorosos, sobretudo do sexo feminino, eis que ele se expôs recentemente ao fantástico mundo da interação digital.

E se deu muito mal.

Um vídeo que circulou esses dias traz um relato do artista em que ele manifesta seu espanto por ter descoberto um monte de gente que não gosta dele e que faz questão de deixar isso agressivamente bem claro, por meio de posts em um site sobre o seu novo disco.

No filmete, Chico lembra que o artista em geral vive num mundo em que se sente amado, há os aplausos, o carinho do público nas ruas, mas que na internet o bicho pega.

"Eu não sabia que o jogo era esse. Na internet as pessoas falam o que lhe vem à cabeça. Na primeira vez, fiquei espantadíssimo. Você descobre que é odiado!".

Ele diz isso entre o espanto propriamente e um riso bem nervoso, lembrando posts que diziam "este velho!" ou "olha o que o álcool faz com a pessoa".

O vídeo, de fato, é hilário, naquela linha de seria cômico se não fosse trágico, trágico pelo menos para o Chico.

Mas além de nos proporcionar alguma diversão, ele, Chico, deixa uma lição: "Você vai fazer o quê? Existe muita raiva, e você vai ficar com raiva de quem está com raiva? Melhor deixar pra lá...".

E arremata com uma observação muito, muito boa...

Video do dia: Comentários na Internet from Chico Buarque: Bastidores on Vimeo.

Fonte:
Luiz Caversan, Folhaonline.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Voltando aos poucos...

Amigos,
após um periodo afastado, estou tentando voltar aos poucos.
Digitando apenas com a mão esquerda, pois sofri um acidente e tive que reconstituir a mão
direita em cirurgia plastica reparadora,  após 21 dias de internação, e com a ajuda dos amigos
e em especial do meu companheiro de vida, estou de volta. Nesse periodo li e vi muita coisa, por isso assunto não vai faltar.
Beijos no coração de todos!

domingo, 5 de junho de 2011

Teatro - A crônica da casa assassinada



O diretor Gabriel Villela encena a adaptação do livro de Lúcio Cardoso, escrito em 1959, sobre a decadência de uma tradicional família mineira, os Meneses. A peça mostra a decomposição moral dos parentes exposta em brigas, casos extraconjugais e atos de violência.

NO VÍDEO, diretor e escritor falam sobre a adaptação do romance