quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O Tempo...Lavoura Arcaica, Raduan Nassar


 O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; o tempo está em tudo.

Rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é;  pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas, não bebendo do vinho quem esvazia num só gole a taça cheia; mas fica a salvo do malogro e livre da decepção quem alcançar aquele equilíbrio, é no manejo mágico de uma balança que está guardada toda a matemática dos sábios, num dos pratos a massa tosca, modelável, no outro, a quantidade de tempo a exigir de cada um o requinte do cálculo, o olhar pronto, a intervenção ágil ao mais sutil desnível.

O tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto é sempre abundante em suas entregas: amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranqüilos, a umidade às almas secas; satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo, não se erguendo jamais o gesto neste culto raro; é através da paciência que nos purificamos, em águas mansas é que devemos nos banhar, encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso desse fruto universal, inesgotável, sorvendo até a exaustão o caldo contido em cada bago, pois só nesse exercício é que amadurecemos, construindo com disciplina a nossa própria imortalidade, forjando, se formos sábios, um paraíso de brandas fantasias onde teria sido um reino penoso de expectativas e suas dores(..)`

(Trecho de Lavoura Arcaica – Raduan Nassar)



11 comentários:

  1. Mas uma maravilhosa postagem... Não li o livro, mas vi o filme.
    Beijos

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  2. Muito boa postagem..

    boa noite...

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  3. Livro e filme arrebatadores.

    O maior criador de galinhas que a literatura já teve, rs.

    Beijos.

    http://vemcaluisa.blogspot.com/

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  4. Oi, Evandro, tudo bem?
    Ótima dica! Anotado!

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  5. Não tenho dúvidas de que se trata de um dos maiores romances da literatura brasileira, que deu origem a um dos mais belos filmes nacionais. É uma pena que o Raduan Nassar não tenha dado continuidade à sua carreira de romancista. Sua novela "Um Copo de Cólera" é, também, um achado. Parabéns pela escolha do texto! Abraços!

    http://pecadoenomorder.blogspot.com

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  6. Evandro, lindo trecho selecionado por você. Gosto tanto do livro como do filme,para mim os dois estão no mesmo patamar. Essa reflexão sobre o tempo entrelaça certos matizes bíblícos assim como uma forte carga trágica. Gosto muito de um trecho de abertura do livro, que não fala do tempo, mas reflete sobre o espaço inviolável do quarto: “Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;” (NASSAR, Raduan. Lavoura arcaica. Companhia das Letras. Edição comemorativa de 30 anos: São Paulo, 2005).

    http://luigilopes.blogspot.com/2010/04/da-inviolabilidade-do-quarto.html

    Um abraço!!!!

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  7. Evandro, Por duas vezes no filme "Lavoura Arcaica" se diz que "a paciência é a virtude das virtudes".
    E eu concordo plenamente. Assisti ao filme mas não li o livro.
    Ótima dica.
    Abraços e tenha uma Ótima Semana.

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    1. Acho que não entendeu nada do livro.

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  8. Outra boa dica de livro. Acabei de perguntar para milha filha e ela também não leu. Tá indicado.
    Abraço

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  9. orgizme.blogspot.com.br/2013/0­4/tempo-o-maior-tesouro-do-ser­-humano.html

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