segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Raquel de Queiroz - Um Alpendre, Uma Rede, Um Açude.



Raquel de Queiroz, talvez seja depois de José de Alencar o nome mais importante da litetura cearense, vi esse documentário na TV aqui em Fortaleza e fiquei fascinado com as histórias dessa mulher. Aqui ela fala sobre o ofício de escrever, sobre a ABL, sobre o Estado Novo, sobre Padre Cícero e sobre sua fata de fé em Deus e sua permanente fé no ser humano.








Saudades...

Fiz uma ameaça muito séria,
Irei declarar o meu amor nos outdoors da cidade.

Foi passando ,passando o tempo.
O amor crescendo, quase explodindo o frágil coração.

Nada posso fazer em prol desse amor,
Se a saudade é maior que a loucura insana.

domingo, 28 de novembro de 2010

Nossas cantoras e sua capas antológicas

Os anos 70 e 80 produziram capas impagáveis que retravam a liberdade da mulher de se expor sem vergonha e medo.

Os ombros de fora, os grande decotes, uma foto nua e uma close  "naquilo " eram inaceitáveis em nossa socidade até final dos anos 60, mesmo com a bossa-nova e a jovem guarda.

Listo algumas que considero antológicas para nosso deleite.

Índia, de 1973, foi censurada e vinha envolta em plástico preto. Gal expõe toda sua sensualidade e mostra aquilo que todo homem nos anos 70 desejava. Comer a Gal era um sonho nacional.

Sinone, em 1982 lança o disco pedaços, onde aparece completamente nua, abraçada no própio corpo,um escandalo mesmo para 1982. Se tornando a mulher mais desejada, principalmente por outras. Uma delícia de liberação.






sábado, 27 de novembro de 2010

Estou de volta pro meu aconchego...




"Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo
Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade "

 Essa música de Dominguinhos e Nando Cordel, define exatamente meu momento, depois de quase 10 anos sem um contato tão grande com  minha familía resolvi me dar essa aula de amor, carinho, paciência e gratidão.

 Fico 20 dias em Fortaleza, na casa de meus pais, e olha que saí de casa em 1999 e todas as vezes que voltei a minha cidade fiquei em hotel, ou casa de amigos.Como foi bobo e imaturo.

Agora revejo tanta coisa e passa um filme em minha cabeça, ver o primeiro colégio que estudei, as ruas onde brincava, os amigos de infância. É como viver tudo novamente, agora com o olhar de fora, parace que me vejo, mochila nas costa, indo pro colégio, e vejo mesmo, em outros meninos que fazem isso hoje e talvez até sonhem os mesmos sonhos que os meus, ou não.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Aniversário...


"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer."


Hoje faço 38 anos de vida...foram muitos os caminhos percorridos até aqui. Muitas alegrias e tristezas, muitos amores vividos e guardados no escaninho do coração, muitos amigos, alguns se foram, outras ficaram no passado, alguns insisto em manter, outros são eternos.

Nasci no dia 25 de novembro de 1972, às 16 horas. Meu pai me disse que era um tarde de sol e calor em Fortaleza, capital do Ceará. Acho que por isso carrego essa energia solar em meu coração.

Hoje, 25 de novembro de 2010, 38 anos depois, exatamente após 38 voltas que o planeta deu em torno do sol... Olho pra trás e vejo que ainda sou aquele menino que corria descalço nas ruas do bairro.

Muitas coisas poderiam ter sido melhores e diferentes. Mas a gente não pode se culpar tanto pelo que não foi melhor ou foi diferente. Qualquer coisa sempre ainda pode ser. Tudo é possível de se reverter (quando realmente a gente quer e se valer mesmo a pena) Coisas vão, coisas voltam, coisas não vão, coisas não voltam. Não existem fórmulas. Existe a força da vida se manifestando, o mundo seguindo seu curso, se movimentando. E o mundo gira rápido, precisamos ser rápidos também, não ter medo de girar com o mundo.
Como diz Clarice Lispector... “A vida é um sopro”.

E vamos lá... Que venham outros e outros bons dias 25, dias 26, dias 27, dias e dias e dias... Sempre girando, caindo, erguendo, correndo, errando, acertando, arriscando, fazendo, acontecendo, perdendo, ganhando, seguindo... VIVENDO  E AMANDO!

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... 

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Dzi Croquettes



Como esse é um dos posts que mais gosto resolvi republicá-lo. Espero que gostem! 

"Nem homem. Nem Mulher. Gente." Assim os Dzi Croquettes se definiam. Era uma gente extraordinária que, em plena ditadura militar, ousou quebrar a rigorosa censura vigente no Brasil com irreverência e graça. Pense em um bando de 13 homens peludos e escrachados que subiam ao palco em vestidinhos, meias-calças, saltos altíssimos, maquiagem pesada, piscando imensos cílios postiços em performances de dança, esquetes de comédia em espetáculo inclassificável, mas tão único que arrebatava fãs por onde passava.
A irreverência foi tanta que por vezes foram proibidos de se apresentar no País. Mas caíram nas graças do público brasileiro e também do europeu, mais precisamente de Paris. É a história desta gente extraordinária que Tatiana Issa e Raphael Alvarez resolveram contar quando começaram, há quase três anos, as filmagens de "Dzi Croquettes". Misturando docudrama e cuidadosa pesquisa de arquivos com entrevistas inéditas e uma edição apurada, já integra a lista de um dos mais premiados e bem recebidos documentários brasileiros da história.
Por falar em brasileiros, vale lembrar que Tatiana e Alvarez vivem em Nova York e não contaram com o apoio de investidores brasileiros para realizar o filme. "Foi muito difícil explicar nosso objetivo aos possíveis patrocinadores. E mais ainda entender os motivos dos ''nãos''. Afinal, queríamos contar uma parte da história recente do Pais que os mais velhos já estavam esquecendo e que os mais jovens talvez nunca conheceriam. No entanto, esbarramos muitas vezes no preconceito escondido em relação aos temas que o filme levanta, como liberdade sexual, aids. Só na fase de pós-produção conseguimos o apoio do Canal Brasil", comentam os diretores.
Prêmios, prêmios... Se os investidores não entenderam a proposta, o público entendeu e premiou. "Dzi Croquettes" estreou no Brasil no Festival do Rio, em outubro de 2009, e saiu de lá como o melhor documentário segundo o júri popular e o oficial. Levou também o prêmio do público na Mostra de São Paulo, no Cine Fest Goiânia, no Torino GLTB Film Festival, e no Los Angeles Brazilian Film Festival. "Para quem fez o filme em um esquema totalmente pessoal, com uma equipe reduzidíssima, depois do horário de trabalho, vê-lo estrear é já um prêmio", diz Tatiana, que é atriz com vasto currículo, mas hoje trabalha no mercado financeiro em Nova York.
                                                Fonte: Estadão.com.br 

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Amor, Festa e Devoção



Aos 45 anos de carreira, Maria Bethânia lança registro de espetáculo em homenagem a sua mãe, Dona Canô, gravado em março no Rio de Janeiro

Nos últimos anos, Maria Bethânia tem se debruçado em projetos que, em comum, falam muito sobre o Brasil. Segundo o poeta Ferreira Gullar, “uma cantora com profunda identificação com seu povo, sua cultura, suas raízes brasileiras”. Essa maneira muito própria de cantar a alma do brasileiro ganha mais um capítulo com Amor Festa Devoção, CD e DVD que registram a última turnê da intérprete.

Amor Festa Devoção, o show, deriva dos discos lançados por Bethânia no ano passado, Tua e Encanteria. Enquanto no primeiro o tema central é o amor, no último a celebração e a fé mananciais do povo brasileiro se apresentam através de 11 canções inéditas. O espetáculo nasceu dos dois discos, mas ganhou existência própria e trilhou caminhos muito mais amplos, a exemplo de todo e qualquer show de Maria Bethânia. Desta vez, a intérprete parte da tríade Amor Festa Devoção como fio condutor de um de seus trabalhos mais confessionais e afetivos:

- São palavras que me dão norte e que têm como subtexto a fé, a esperança e a caridade, características fortes em minha mãe. Isso explica a energia e o seu espírito para com a vida, os seus 103 anos... Tudo isso são aprendizados para mim. Só agora consigo traduzir em música, intenção e gesto tudo que ela representa para mim” – conceitua a cantora.

Assim, Bethânia parte das 22 novas canções dos discos Tua e Encanteria – das quais canta 18 no show – para tecer uma homenagem, a maior delas em 45 anos de carreira, à ‘mãe Canô’. Coincidentemente, as canções inéditas e temas abordados nos álbuns bivitelinos lançados no ano passado convergem todos para o fio condutor escolhido por Bethânia: as três palavras de ordem de sua mãe e, segundo a cantora, ‘ensinamentos dela para bem viver’. As músicas que completam o roteiro dão continuidade ao raciocínio da intérprete, formam um discurso único e linear: temas de Caetano Veloso (alguns inéditos na voz de Bethânia, como Queixa e Dama do Cassino), Chico Buarque (Vida), sucessos da carreira (como Explode Coração e O que é O que é, ambas de Gonzaguinha), além de canções do universo e dos tempos de Dona Canô - como Bom Dia (Herivelto Martins), Andorinha (Silvio Caldas) e Bandeira Branca (Max Nunes/ Laércia Alves) -, que sempre foi e é, ela, uma apaixonada por música.

A cenografia de Bia Lessa (que também assina a direção do espetáculo) se vale de elementos cênicos que identificam com muita clareza todo o conceito desenvolvido por Bethânia: o chão salpicado de rosas vermelhas, a madeira de tábua envelhecida, o manto também com rosas vermelhas e pequenas luzes internas que alternam cores, posição e ritmo, além de vários pequenos quadros com fotos de Anna Mariani (de fachadas de casas do interior do Nordeste) que retratam a fé, as pessoas e as coisas do Brasil tão presentes no canto, na essência e no discurso contundente desta artista que reordena na rota geográfica do país, universos e sentimentos, em geral, relegados ao esquecimento.

Nos extras, dois números gravados num palco sem plateia – Eu Velejava em Você (Eduardo Dussek/ Luiz Carlos Goes), que representa o Amor, e Sete Trovas (Consuelo de Paula/Etel Frota/ Rubens Nogueira), a Festa -, e um pequeno documentário que registra uma apresentação de Bethânia na Basílica de Aparecida do Norte, no dia 12 de outubro de 2004, que traz ainda depoimentos de fiéis e romeiros, além do encontro conclusivo da cantora com Dona Canô, a Devoção.

Além do DVD dirigido por André Horta, Amor Festa Devoção sai também em Blu-Ray e CD duplo.

Clique no link abaixo e compre:
http://www.biscoitofino.com.br


                                                                                       Fonte: Maria Bethânia Reverso

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

História Sexual da MPB



Esse delicioso livro de pesquisador Rodrigo Faour já faz parte dos meus preferidos.
Um estudo inédito sobre música e comportamento nas letras e danças do cancioneiro popular brasileiro desde o século XVIII aos dias atuais, com enfoque nos temas de amor e sexo. Os capítulos passeiam pela vocação de boa parte de nossa música do passado para a tristeza amorosa e a dor-de-cotovelo; pela evolução da mulher, da sensualidade e da homossexualidade em nossa sociedade refletida em canções; duplo sentido e transgressões em geral nestes temas, e uma análise do impacto causado na elite bem pensante do país pela dança do maxixe na virada para o XX e do funk carioca no início do século XXI.
Este livro apresenta ainda 64 páginas ilustradas mostrando esta evolução de comportamento afetiva e sexual do brasileiro em capas de discos nacionais. Também acompanha uma farta discografia organizada por tópicos temáticos. A quarta capa é assinada pelo jornalista e escritor Ruy Castro, a orelha pelo pesquisador Jairo Severiano e o prefácio pela sexóloga Regina Navarro Lins.

Assista abaixo trechos da entrevista de Rodrigo sobre o livro:







domingo, 21 de novembro de 2010

O Prazer de ouvir Djavan


 Com certeza você é capaz de cantar no mínimo cinco músicas do compositor Djavan, sucessos como Oceano, Flor de Lis, Samurai, Se, Nuvem Negra, Açai fazem parte de nossa mémoria emotiva. Mas em seu novo trabalho Djavan mostra seu lado intérprete.

 Na ópera, a ária é o  momento mais esperado, o auge, o espaço privilegiado da sublime melodia.

 Ária, o novo cd de Djavan, é o momento em que uma das vozes mais bonitas que já ouvi dedica-se, pela primeira vez, exclusivamente  a cantar, sem se preocupar com novas composições autorais.

 Surpreendente primeiro pela escolha do repertório, que parece ser totalmente guiado pela memória emocional do cantor. Um disco com raro despreendimento estético e de intenso compromisso com o que importa, a música.

Abaixo você poderá ouvir a belíssima interpretação de Oração ao Tempo, pra mim a mais bela canção de Caetano Veloso, e Sabes Mentir, de Othon Russo, música gravada por Ângela Maria na RCA Victor em 1951 e um dos sucessos daquele ano.


Prêmio Dardos


Este majestoso selo foi indicado pelas blogueiro e amigo William - do "William's Blog". Agradeço pela escolha e deixo um abraço carinhoso para o mesmo.

Acho que ter um blog significa ter um espaço para dividir com pessoas de todo lugar do mundo, coisas que  gostamos, pelas quais nos apaixonamos, aquilo que move nossa alma e nosso coração.

"O Prêmio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc... que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto em suas letras, e suas palavras."

Das regras:

- Exibir a imagem do Selo no Blog
- Exibir o link do blog que você recebeu a indicação
- Escolher 10, 15 ou 30 blogs para dar a indicação e avisá-los.

Para cumprir as regras, tenho o prazer de relacionar algumas páginas que atendem aos requisitos e que adoro freqüentar:













sábado, 20 de novembro de 2010

Pio XII - O Papa de Hitler

No ano de 2003 li o polêmico e arrebatador livro de John Cornwell: Pio XII, O Papa de Hitler.

Lembrei muito desse livro ontem ao assistir o também polêmico e arrebatador filme do diretor grego Constantin Costa-Gavras: Amén. O filme se concentra menos na figura de Pio XII (como na história original, uma peça encenada pela primeira vez em 1963) e mais no impacto que a atitude do papa tem sobre dois homens – um oficial da SS nazista e um padre jesuíta.

O primeiro, Kurt Gerstein, é um personagem verídico. Interpretado de forma soberba pelo alemão Ulrich Tukur, Gerstein era protestante devoto e um dos cientistas responsáveis pelo desenvolvimento do gás Zyklon-B – que a princípio servia para descontaminar os suprimentos de água dos soldados do Reich, mas logo se descobriu ser igualmente eficaz no extermínio em massa de prisioneiros inocentes. Obrigado a cuidar do fornecimento de Zyklon-B, Gerstein horrorizou-se com o que viu e tentou de todas as maneiras divulgar suas denúncias. Procurou pastores protestantes e diplomatas de países neutros, em vão. Ao se render aos franceses em 1945, Gerstein escreveu um depoimento que foi uma das peças-chave para o julgamento dos crimes alemães na II Guerra, em Nuremberg. Logo em seguida, foi encontrado enforcado em sua cela. O segundo personagem, o padre Riccardo Fontana (papel do francês Mathieu Kassovitz, ele próprio judeu), é um amálgama de sacerdotes que tentaram alertar Pio XII sobre o genocídio. No filme, ele e Gerstein unem esforços e compartilham sua perplexidade pela indiferença que os cerca – o verdadeiro tema de que se ocupa Costa-Gavras.

Amém, evidentemente, causou agravo em países de forte influência católica, como a Itália e a França. Menos por sua narrativa relativamente equilibrada, que se lembra de fazer justiça aos inúmeros padres católicos que abrigaram judeus, e mais pelo cartaz do filme, que funde uma cruz a uma suástica e foi criado pelo designer italiano Oliviero Toscani, autor de polêmicas campanhas da Benetton nos anos 90. Como propaganda, é enganosa. O cartaz promete um indiciamento, mas o que Amém entrega é um exame moral – algo muito mais interessante e mais rico.

O filme não traz cenas já muito utilizadas em filmes com esse tema, aqui não vemos imagens de judeus sendo mortos em centros de concentração, ou expulsos de suas casas, ou sendo transportados de forma sub-humana em trens pelo continente europeu. Mas algo muito mais chocante ao expor a ferida histórica em uma cena em que o embaixador do III Reich fala ao Papa Pio XII: “ Nós não estamos fazendo nada que a sua igreja já não tenha feito,vocês purificavam com fogo, nós purificamos em larga escala.”

Acho que não preciso escrever mais nada, vale a pena ver o Filme de Costa-Gravas e se possível ler o livro de John Cornwell.



quinta-feira, 18 de novembro de 2010

As Horas - Michael Cunningham



 Talvez poucas pessoas saibam que o filme "As Horas" dirigido por Stephen Daldry em 2002 ( diretor de Billy Elliot em 2000 e de O Leitor em 2009) é uma adaptação do romance homônimo do escritor norte-americano Michael Cunningham, que no livro, presta tributo a Virginia Woolf (1882-1941).

O filme rendeu  oito indicações ao Oscar em 2003: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante (Ed Harris), Melhor Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Melhor Figurino, Melhor Edição, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora, e venceu na categoria de Melhor Atriz (Nicole Kidman).

No Festival de Berlim 2003 venceu o Urso de Prata (Meryl Steep, Nicole Kidman e Julianne Moore),
recebeu um prêmio especial do júri e foi indicado ao Urso de Ouro.

Mas eu gostaria de falar mais sobre o livro de Michael Cunningham, do que sobre o filme de Stephen Daldry.

Virginia Woolf para mim é a mais radical experimentalista da ficção inglesa e foi magistralmente homenageada pelo escritor em um jogo de referências à obra-prima "Mrs. Dalloway", à luz dos problemas dos anos 90.

A homenagem do autor está tanto no estilo intimista, próprio de Woolf, quanto ao colocá-la como uma das protagonistas do livro, que narra um dia na vida de três mulheres de diferentes gerações.

Virginia Woolf vive no subúrbio de Londres em 1923 preparando os manuscritos de seu romance "Mrs. Dalloway" --ainda nessa fase intitulado "The Hours" (As Horas); Laura Brown é uma deprimida dona-de-casa em Los Angeles, lendo "Mrs. Dalloway" em 1959, e Clarissa Vaughan, uma editora de livros que vive nos dias de hoje na West 10th Street, em Greenwich Village.

Mrs. Woolf, Mrs. Laura e Mrs. Clarissa são, respectivamente, as três faces de "Mrs. Dalloway": a que escreve, a que lê e a que vive. O livro começa com um prólogo no qual se narra o suicídio de Virginia Woolf, quando, aos 59 anos, se afogou no rio Ouse, Sussex, no sudeste da Inglaterra, onde então morava.

Virginia escreve duas cartas de despedida. Uma para sua irmã, Vanessa Bell. A outra para seu marido, Leonard Woolf. Põe duas grandes pedras no bolso e mergulha nas águas caudalosas.

O começo abrupto, frio e estranho só ganha razão de ser pela coerência interna que avança gradativamente.

A história toma pulso a partir do quarto episódio, quando estão bem delineadas as vidas paralelas do romance.

A história de Clarissa é a peça central. Seu apelido, Mrs. Dalloway, foi dado por seu amigo e ex-amante Richard, um atormentado poeta homossexual, soropositivo em fase terminal. Como no romance original de Woolf, Clarissa sai para comprar flores, perambulando pelas ruas da cidade, reflete sobre sua vida, reencontra conhecidos e esforça-se para que a festa em homenagem ao prêmio literário recebido por Richard seja perfeita.

Ao contrário da mera sugestão de um amor de infância no romance woolfiano, Clarissa e Sally vivem juntas e felizes há 18 anos. A jovem Julia, filha de Clarissa, cujo pai é "nada mais do que uma proveta numerada", é preocupação para a mãe por se relacionar com uma amiga feminista.

O livro não traz de volta as circunstâncias políticas de "'Mrs. Dalloway", ecos da Primeira Guerra Mundial, através das alucinações de um ex-combatente. Porém, a percepção visionária, a um passo da loucura do poeta Richard, e a aproximação das angústias vividas por uma família tradicional --no caso de Laura-- e de uma família pós-moderna --Clarissa e Sally-- reintroduzem a história no livro de Cunningham.

Não a história dos grandes eventos, mas a dos pequenos fatos que reverberam e se eternizam no miúdo --flores, entre a renovação e a decrepitude, olhares, beijos furtivos, festas e frivolidades, decepções e descobertas. Há uma virtual imobilização com a concentração no detalhe prosaico, no mergulho vertiginoso no inconsciente. Cada cena é decisiva. Casais homossexuais, jovens fúteis, quarentões, ex-militantes que aderiram às glórias do consumo, donas-de-casa sufocadas, liberdade ameaçada pela iminência da Aids, gerações que poderiam ter sido e que não foram. Esse painel cruel dos anos 90 parece um prato cheio para certa crítica engajada que valoriza questões de raça, gênero e classe nos EUA.

Mas o valor do livro não está na sua boa intenção. Dela o autor se valeu nos romances anteriores, ao retratar os desajustados --com certa proeza em "Uma Casa no Fim do Mundo" (1990), de maneira um tanto desigual em "Laços de Sangue" (1995) e agora com maturidade suficiente para agradar a conteudistas e a formalistas.

A insatisfação une as personagens. Virgínia, cansada e fraca, aborrecida com a chegada antecipada de sua irmã e a impossibilidade de continuar escrevendo. Laura e sua sufocante vida caseira, sua obsessão não só por atingir a perfeição nas tarefas domésticas --na preparação da festa de aniversário de seu marido-- como também pela leitura da obra de Woolf, que para ela é a catarse --ela chega ao ponto de deixar o filho com uma babá e vai a um hotel simplesmente para ler. E a própria Clarissa e suas dualidades: vida e arte, o testemunho do suicídio do amigo e a revisão de escolhas. Mas, diferentemente de "Mrs. Dalloway", para surpresa do leitor, as três histórias convergem e deixam uma nota de esperança.

Mais do que frêmito, a obra de Cunningham é um mergulho, seja em pesquisa, seja em estilo, que faz manter viva Virginia Woolf. Não é necessário ser um devoto da escritora inglesa para apreciar o pequeno livro de Cunningham. Mas, como escreveu o próprio autor, as conexões entre os dois livros se tornam tão mais "ricas, penetrantes e originais que não ler 'Mrs. Dalloway' depois de ter lido 'As Horas' é como deixar um concerto justamente no momento em que ele está no seu auge".

"As Horas" é um livro que tem vida própria, mas que estimula a (re)ler Virginia Woolf e a refletir sobre a porção Mrs. Dalloway que existe em cada um de nós.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dorival Caymmi - O Homem e o Mar



Compositor baiano responsável em grande parte pela imagem que a Bahia tem hoje em dia, seu estilo inimitável de compor e cantar influenciou várias gerações de músicos brasileiros.

“Os negros e os mulatos que têm suas vidas amarradas ao mar têm sido a minha mais permanente inspiração. Não sei de drama mais poderoso do que o das mulheres que esperam a volta, sempre incerta, dos maridos que partem todas as manhãs para o mar no bojo dos leves saveiros ou das milagrosas jangadas. (...) Tratei desses motivos porque nada mais sou que um homem do cais da Bahia, devoto eu também de Yemanjá, certo eu também que estamos todos nós nas suas mãos, rogando-lhe que não envie os ventos da tempestade, que seja de bonança o mar da minha vida”.

- Dorival Caymmi, na introdução de Cancioneiro da Bahia -



Iemanjá não negou a seu filho mais devotado um mar de bonança em sua vida. Deu-lhe a sorte de nascer no seio de uma família que estimulou o florescimento de seus múltiplos dons artísticos, não demorou a alcançar o merecido sucesso por seu talento, colecionou fiéis amigos e admiradores, foi correspondido no amor pela cantora Stella Maris, sua estrela-do-mar, com quem construiu uma verdadeira dinastia de músicos talentosos.

O fiscal da alfândega Durval Caymmi e a dona-de-casa Aurelina Cândida Soares Caymmi sempre tiveram a música muito presente em suas vidas: enquanto ele tocava piano, bandolim, violão e promovia saraus, ela cantava. Ainda criança, Dorival já pegava escondido o violão do pai para experimentar as cordas e tentar reproduzir os sons que ouvia nas festas e na vitrola. Durval não demorou a descobrir a travessura, e tentou corrigir o que o filho fazia de “errado” com o instrumento. Mas o menino resolveu insistir em alguns desses “erros”, como a inversão de acordes, que acabariam marcando seu estilo.

O companheiro de toda a vida, José Rodrigues de Oliveira, o Zezinho, embarcou na paixão do amigo. Foi com ele que Dorival descobriu os pescadores, quando veraneavam em Itapuã, e foi com ele também que entrou por curiosidade na Rádio Clube da Bahia, onde arriscou uma canção no ar pela primeira vez. “Sua voz é igual à do Francisco Alves”, estimulou Zezinho. Animados, os amigos resolveram formar um conjunto musical, o Três e Meio. Dorival, responsável pelo violão chamou o irmão Deraldo para tocar tambor, e Zezinho, que assumiu o cavaquinho, trouxe o irmão menor Luiz – o “meio” do grupo – para fazer o ritmo com o pandeiro. O conjunto cantava sucessos dos cantores que ouviam no rádio, como Noel Rosa e Carmem Miranda.




Caymmi chegou a compor algumas canções nesta época, ganhou alguns cachês para apresentar-se com o conjunto, mas não via a música como atividade profissional. Serviu o exército, prestou um concurso, mas não vendo muito futuro no mercado de trabalho baiano, o rapaz resolveu tentar a sorte no Rio de Janeiro. Sua intenção era cursar Direito, e pretendia arrumar algum emprego na imprensa para bancar os estudos. Na bagagem que partiu com ele a bordo do navio Itapé, no dia 1º de abril de 1938, foi seu violão, bem disfarçado no embrulho.

Mas, tão logo tirado da mala, o instrumento provou que não seria coadjuvante nessa história. Já no seu primeiro ano no Rio de Janeiro, Dorival Caymmi começou a integrar a elite artística da então capital. Logo fez amizade com outro baiano, o escritor Jorge Amado, com quem chegou inclusive a compor algumas canções, como É doce morrer no mar. Caymmi apresentou suas composições nas rádios Tupi, Nacional e Transmissora, conheceu Assis Chateaubriand e foi apresentado a Carmem Miranda – que daria projeção internacional a suas canções, como O que é que a baiana tem?.

Foi no rádio também que Caymmi conheceu Adelaide Tostes, num programa de calouros. A bela moça loura e alta o cativou com sua interpretação do Último desejo, de Noel Rosa. Adelaide, que gostava de ser chamada de Stella, logo ganhou a alcunha de Stella Maris (do latim, estrela-do-mar) do radialista César Ladeira. E não demoraria para se tornar Stella Caymmi.

Em 1941 nascia a primeira filha do casal, batizada de Dinahir, em homenagem à irmã caçula do compositor, mas que ficaria conhecida como Nana. O sucesso estava só começando. Caymmi circulou à vontade por todo o cenário artístico e intelectual brasileiro. Além da música, chegou a aventurar-se pelas artes plásticas. “Dorival é um grande pintor, não é negócio de brincadeira, não”, elogia o amigo Carybé. Criou raízes no Rio de Janeiro, onde cresceram seus três filhos – além de Nana, Dorival e Stella tiveram Dori, em 1943, e Danilo, em 1948 – ambos músicos de talento também.

Certa vez o compositor declarou a um jornalista: “Sou o mesmo de quando me casei. Meus filhos são maiores de idade e já seguiram seus caminhos, mas eu continuo no mesmo ambiente de violão e livros”. Com seu jeito manso, Caymmi revolucionou a canção brasileira e influenciou as gerações seguintes de músicos, como João Gilberto, Caetano Veloso, Tom Zé e muitos outros, abrindo a porta para movimentos como a Bossa Nova e a Tropicália. Mas, a despeito de toda essa reverência, o baiano não deixou que o sucesso atrapalhasse sua vida familiar, seus hábitos do dia-a-dia, seu papo com os amigos.

Dorival Caymmi morreu em 2008, em decorrência de um câncer renal que já tratava havia nove anos. Sua Copacabana ostenta hoje uma estátua de bronze inspirada em uma famosa foto de Evandro Teixeira, com o compositor saindo da praia carregando seu violão, enquanto acena para algum conhecido. Da mesma forma que suas canções soam quase como repertório popular, tamanha a familiaridade dos brasileiros com seus ritmos e letras, sua própria imagem, cantando suas poesias do mar, também transita confortável pelo imaginário de sua gente.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

“Antes a inquietação de um amor, do que a paz                       de um coração vazio…”
              Caio Fernando Abreu



domingo, 14 de novembro de 2010

Chico Buarque na TV



O casamento de Ary está nas últimas. Uma briga com a mulher desencadeia a peregrinação pelos bares de São Paulo. Ele corre a avenida Paulista, desce a rua Augusta, alcança o viaduto do Chá, passa pelo edifício Copan.

Nessa busca por sabe-se lá o quê, ele conhece Vera. A companhia é agradável. O sexo, inesquecível. Paixão instantânea. No dia seguinte, vem a conta: Vera é prostituta, ele não sabia. E cobra de Ary a noitada --ironicamente, a mais romântica que ele teve nessa sua triste vida.

Assim, resumido, o argumento de "Folhetim", um dos quatro episódios da microssérie "Amor em Quatro Atos", que estreia na TV Globo em janeiro, parece até ter sido inspirado por algum conto de "A Vida como Ela É", de Nelson Rodrigues.

Mas não. Foi a letra da canção homônima de Chico Buarque (aquela dos versos: "Se acaso me quiseres, sou dessas mulheres que só dizem sim") que conduziu o roteiro do episódio, trouxe seus personagens e, no fim, que vai render sua trilha sonora.

O mesmo vai acontecer com os versos de "Vitrines", "Mil Perdões", "Construção" e "Ela Faz Cinema", canções de Chico em que os roteiristas Antonia Pellegrino, Marcio Alemão Delgado, Estela Renner e Tadeu Jungle foram buscar as outras histórias.

O projeto foi criado por Rodrigo Teixeira, que comprou os direitos de dez canções de Chico para este e outros fins.

PACOTE CHICO

Já está publicado, pela Cia. das Letras, o livro "Essa História Está Diferente", em que dez escritores criaram contos sobre as músicas do compositor. Baseado em "Olhos nos Olhos", Karim Aïnouz está produzindo o longa "Eclipse da Violeta" para o cinema.

"Amor em Quatro Atos" completa o pacote na TV. Coprodutora do projeto, a Globo disponibilizou alguns de seus atores para a série.

Entre eles estão Carolina Ferraz, Malvino Salvador, Vladimir Brichta, Alinne Moraes, Marjorie Estiano, Dalton Vigh e Camila Morgado.

A supervisão geral ficou sob os cuidados de Roberto Talma. A direção foi dividida entre Talma ("Mil Perdões"), Tadeu Jungle (capítulo que une "Construção" e "Ela Faz Cinema") e Bruno Barreto.

Barreto é o único que assina dois episódios. O cineasta está tratando "Folhetim" e "Vitrines" como duas metades de uma única história. Um longa de 80 minutos.

Depois que se apaixonar pela prostituta em "Folhetim", Ary passa todo o episódio "Vitrines" obcecado por ela. Segue seus passos às escondidas, como diz a canção, "catando a poesia que [ela] entorna no chão".

"Outro dia, brinquei com o Chico [Buarque]", conta. "Nos anos 70, ele fez uma música ['O que Será'] para o meu filme 'Dona Flor e Seus Dois Maridos'. Agora, faço um filme para músicas dele. Enfim, estamos quites."

Se o formato pegar, podemos esperar canções de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Jobim virando histórias em futuras noites da Globo.

                                                          Fonte: Ilustrada, Folhaonline

Três Livros para entender o Brasil




Casa-grande & senzala é o primeiro livro de Gilberto Freyre. Publicado em primeira edição no Rio de janeiro, em dezembro de 1933, teve enorme repercussão junto ao público. Abordagens inovadoras de vida familiar, dos costumes públicos e privados, das mentalidades e das inter-relações étnicas revelam um painel envolvente e deliciosamente instigante da formação brasileira no perí odo colonial. Da arquitetura real e imaginária da casa-grande e dos fluxos e refluxos do cotidiano da famí lia patriarcal, emergiram traços da convivência feita de intimidade e dominação entre senhores e escravos e entre brancos, pretos e í ndios que marcaram para sempre a sociedade brasileira. Após diversas edições, Casa-Grande & Senzala continua repercutindo.






Entender o sentido do que hoje somos é muito mais do que um desafio, constituísse num longo e detalhado processo de trabalho. A reflexão sobre a nossa formação nos remete às nossas origens, à história que como brasileiros, fomos construindo. A realidade na qual nos encontramos traz reflexões e pontos de vista provenientes de outros contextos.
É isso que Darcy Ribeiro faz nesse livro, nos mostrar que somos esse povo novo, que surgiu da mistura do índio, do branco colonizador e do negro.









Publicada em 1936, Raízes do Brasil aborda aspectos centrais da história da cultura brasileira. O texto consiste de uma macro-interpretação do processo de formação da sociedade brasileira. Destaca, sobretudo, a importância do legado cultural da colonização portuguesa do Brasil, e a dinâmica dos arranjos e adaptações que marcaram as transferências culturais de Portugal para a sua colônia americana.

O Signo da Cidade


Acabei de assistir o Signo da Cidade, dirigido por Carlos Alberto Riccelli e com roteiro de Bruna Lombardi, um holograma da cidade de São Paulo, suas personagens e suas perdas, memórias, conflitos e busca pela felicidade.
O destino das pessoas é como se fossem teias de aranha, que se entrelaçam e fazem com que as pessoas se esbarrem, se conheçam, se amem.... esse é o mistério desse filme.Histórias de pessoas que se entrelaçam na grande metrópole paulistana acompanhados pelo ponto de vista de uma astróloga que vive os traumas das pessoas como se fossem seus próprios. Bruna Lombardi, graciosamente faz o papel de Teca, mulher que segundo ela mesma “Lê as Estrelas” tem um programa de rádio, vitima de um recente divorcio a doença terminal de um pai que mal conhece, ela se vê envolta aos seus próprios problemas e os anseios das pessoas anônimas que buscam respostas para seus problemas em seu programa de rádio.
Junto a Teca, o filme entrelaça a vida de inúmeras pessoas como se fossem Teias Astrais do destino, fazendo com que a vida de todos se esbarrem uma nas outras em determinado momento do filme, mostrando como as nossas ações refletem nas pessoas do nosso cotidiano.
Ao mesmo tempo o filme reflete em diversos momentos a fragilidade da vida humana e como às vezes uma simples palavra de apoio é necessária para aquela pessoa que está frente a seus olhos pedindo apenas um momento mutuo de afeto. Apesar de todos esses detalhes o filme não é frágil, muito pelo contrário, os acontecimentos nas vidas das pessoas são tão rápidos que em inúmeros momentos ou em determinadas situações você com certeza se vê na ação vivida por tal personagem, pode-se dizer que o filme é como se fosse um grande elevador com altos e baixos e inúmeras pessoas entrando e saindo dele, deixando uma pequena parte delas para a ascensorista.
Bruna Lombardi está fantástica, assim como figurino, maquiagem e cenário, o filme é um complemento místico e ético para a cidade de São Paulo. A postura poética que Bruna Lombardi leva em todas as cenas é de encher o coração e refletir sobre a vida, ela se destaca perfeitamente como roteirista e atriz, está excelente, posso dizer que está na sua melhor fase da vida, pois uma personagem mística e ao mesmo tempo misteriosa e humana como Teca é a coisa mais difícil de ver hoje em dia. Não podemos esquecer da excelente direção de Carlos Alberto Riccelli, que transformou a cidade de São Paulo que nós conhecemos em um local mágico e misterioso a ser desvendado, visto e deslumbrado pelos olhos de Teca.
Um fator interessante que é visto nesse filme, é o estilo Europeu de roteiro, o filme começa no meio e termina no meio, deixando de lado o final conclusivo que se existe em todos os filmes americanos. O filme começa e as pessoas já estão lá, aparentemente escolhidas a dedo para serem filmadas suas vidas, intimidades, desejos e posturas e quando o filme encerra, as pessoas continuam lá, vivendo suas vidas e você para e se pergunta “O que aconteceu depois disso?” Esse é o grande mistério, isso que realmente encanta no filme.
O filme deve ser visto e sentido, pois ele toca de diversas formas e fecha com chave de ouro, na voz de Maria Bethânia cantando Sorte.






Poema de Sombra

"Se perdem gestos, cartas de amor, malas, parentes
Se perdem vozes, cidades, países, amigos
Romances perdidos, objetos perdidos, histórias se perdem.

Se perde o que fomos e o que queríamos ser.
Se perde o momento, mas não existe perda, existe movimento."
                                                             
                                                                     Bruna Lombardi

sábado, 13 de novembro de 2010

Movimento dos Barcos - Jards Macalé




Estou Cansado E Você Também
Vou Sair Sem Abrir A Porta
E Não Voltar Nunca Mais
Desculpe A Paz Que Lhe Roubei
E O Futuro Esperado Que Nunca Lhe Dei
É Impossível Levar Um Barco Sem Temporais
E Suportar A Vida Como Um Momento Além Do Cais
Que Passa Ao Largo Do Nosso Corpo
Não Quero Ficar Dando Adeus
As Coisas Passando
Eu Quero É Passar Com Elas
E Não Deixar Nada Mais Do Que Cinzas De Um Cigarro
E A Marca De Um Abraço No Seu Corpo
Não, Não Sou Eu Quem Vai Ficar No Porto Chorando
Lamentando O Eterno Movimento Dos Barcos.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Por que ler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa



 Grande Sertão :Veredas - travessia que Riobaldo, narrador-personagem, faz em suas memórias a fim de narrar suas vivências a um "senhor" durante três dias. Travessia que Guimarães Rosa faz através do caráter insólito e ambíguo do homem, tornando uma experiência individual (Riobaldo ) em caráter universal - "o sertão é o mundo".

"Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam - o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu - o que quero e sobrequero -: é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim."
Grande Sertão: veredas
Guimarães Rosa

Riobaldo, protagonista do romance Grande Sertão: Veredas, percebe que o medo é contagioso e reconhece o seu direito de não lhe fazerem medo. Munido de tal certeza, embrenha-se por entre as veredas mortas em busca de um pacto com o diabo. Procura uma encruzilhada sombria e permanece a espera do tinhoso.
"O que tinha por mim - só a invenção da coragem."
A noite passa dentro do personagem. Os espectros das veredas sombreiam seu corpo e incorporam as expectativas e visagens do jagunço. Os primeiros raios do amanhecer iluminam a obscuridade de Riobaldo. O pacto com o diabo é um pacto com ele próprio. O personagem é fortalecido com a apropriação do medo. O agente do perigo é ele e não a projeção no mundo do "coisa ruim" que aprendeu desde criança a temer e respeitar.
"Posso me esconder de mim?" O questionamento abre a chaga do verdadeiro mistério. Riobaldo deixa-se abater pela febre na claridade.
"Viver é muito perigoso", "viver é um descuido prosseguido", mas o jagunço, com tiro certeiro, afirma que "viver é etcétera". A infinidade de veredas que podemos perfilar na oração de nossas ações. As possibilidades podem estar sob as sombras dos nossos receios.
O homem e suas projeções, ações e omissões num mundo indiferente. Os conflitos humanos construindo e destruindo as teias de vivências. É necessário viver o paradoxo. Ser heroicamente autor de nossas covardias... Será? E a coragem de criar, de retalhar o medo na intimidade e desafiar o mundo como Riobaldo desafia ao lançar-se num pacto com o representante do Mal?
A coragem de construir alicerces para nossa incompletude. Assumir o risco pelo dano que podemos nos causar... "Viver é etcétera..." Riobaldo reacendeu a coragem na conquista de um novo espaço no mundo.
O mundo é indiferente, o mal é apenas uma projeção... O ser é o cerne de seu temor, o vir a ser e o não ser... os grandes interditos... O direito está em ser o único perigo real.
"Medo agarra a gente é pelo enraizado." Estar preso às raízes pode impossibilitar um olhar mais amplo para as conquistas dos novos horizontes. Presos às limitações dos sentidos, resta-nos permanecer na situação, culpando o medo e o remorso por nossa inação.
Na vida devemos valorizar nossas origens nas raízes que nos prendem aos solos, mas devemos construir nossas antenas para poder compartilhar as inovações do mundo e enfrentá-las com segurança.
"Só temos que temer o próprio medo." Edgar Morin, com outras palavras, afirma o direito declarado por Riobaldo e elabora o mistério "Todo mistério do mundo está no nosso espírito. Todas as estruturas do nosso espírito são projetadas ao exterior, sobre o mundo."
A realidade se perde, pois só pode ser concebida se o sentimento for iniciado no homem e nele terminar com a atitude de um pacto em que o medo passa a compor para um objetivo... Contudo, quando o homem perde a noção da extensão de si e dos seus atos, os sentimentos são projetados para o outro, o medo surge como a impotência de ser para si, como a negação de ser para o outro.
Guimarães Rosa desvenda os sertões, abre veredas de lucidez e sensibilidade por intermédio do jagunço Teobaldo. Quantas são as passagens que poderiam ser objetos de ensaios! Quantas exclamações salientam a pluralidade do homem! Quantos sertões existem a serem desbravados!
O final do romance umedece todas as sensações. A morte de Diadorim, o menino da travessia do São Francisco que cresceu, cruzou os sertões em vida de vingança e morreu em combate num corpo feminino, é toda a poesia. Neste momento a prosa de Guimarães Rosa é imagem, som e pensamento - as veredas, os versos a construir o poema-sertão.
O leitor, seduzido, vivencia a emoção sem poder decifrar a simbologia de tantas metáforas, envolve-se de forma plena sem ter a real percepção de suas emoções. O encontro de Teobaldo e Diadorim se dá na impossibilidade. O mistério se apaga nos finos lábios que, calados, se tornam sertão.
O ser humano na travessia, muitas vezes teme ousar por novas veredas, amedronta-se diante de novas abordagens - a incapacidade aniquila o paradoxo e estagna o homem na limitação do perigo aparente.
Guimarães Rosa ousou. Criou uma nova linguagem e inovou no desenvolvimento do enredo, retratando áridas vidas que compõem os sertões do mundo, sem temer a crítica. O grande desafio estava em transformar em literatura a sua percepção do mundo e dos semelhantes.
Ninguém teve o direito de lhe fazer sentir medo. Nós, leitores, admiramos sua coragem criativa e sua grande obra e devemos nos preencher das metáforas do caminho para assumir o pacto com nossa ambigüidade.
Conscientes de que o medo se instaura na ausência da força de uma realização. Concretizemos nossos ideais para estabilizarmo-nos diante da confusão das coisas num futuro incerto dentro da perspectivas dos caminhos que se descobrem nos primeiros passos.

CRÔNICA DE MACHADO DE ASSIS SOBRE A INAUGURAÇÃO DOS BONDES DE SANTA TERESA (15 de março de 1877)



Inauguraram-se os bonds [bondes, palavra originária do inglês bond] de Santa Teresa, — um sistema de alcatruzes ou de escada de Jacó [escada bíblica que levava ao céu], — uma imagem das coisas deste mundo. Quando um bond sobe, outro desce, não há tempo em caminho para uma pitada de rapé, quando muito, podem dois sujeitos fazer uma barretada [saudação que consiste em tirar da cabeça o barrete].

O pior é se um dia, naquele subir e descer, descer e subir, subirem uns para o céu e outros descerem ao purgatório, ou quando menos ao necrotério.
Escusado é dizer que as diligências viram esta inauguração com um olhar extremamente melancólico.
Alguns burros, afeitos à subida e descida do outeiro, estavam ontem lastimando este novo passo do progresso. Um deles, filósofo, humanitário e ambicioso, murmurava:

— Dizem: les dieux s'en vont [os deuses vão-se embora]. Que ironia! Não; não são os deuses somos nós. Les ânes s'en vont [os asnos vão-se embora], meus colegas, les ânes s'en vont.

E esse interessante quadrúpede olhava para o bond com um olhar cheio de saudade e humilhação. Talvez rememorava a queda lenta do burro, expelido de toda a parte pelo vapor, como o vapor o há de ser pelo balão, e o balão pela eletricidade, a eletricidade por uma força nova, que levará de vez este grande trem do mundo ate à estação terminal.
O que assim não seja... por ora.
Mas inauguraram-se os bonds. Agora é que Santa Teresa vai ficar à moda. O que havia pior, enfadonho a mais não ser, eram as viagens de diligência, nome irônico de todos os veículos desse gênero. A diligência é um meio-termo entre a tartaruga e o boi.
Uma das vantagens dos bonds de Santa Teresa sobre os seus congêneresda cidade, é a impossibilidade da pescaria. A pescaria é a chaga dos outros bonds. Assim, entre o Largo do Machado e a Glória a pescaria é uma verdadeira amolação, cada bond desce a passo lento, a olhar para um e outro lado, a catar um passageiro ao longe. As vezes o passageiro aponta na Praia do Flamengo, o bond, polido e generoso, suspende passo, cochila, toma uma pitada, dá dois dedos de conversa, apanha o passageiro, e segue o fadário até a seguinte esquina onde repete a mesma lengalenga.
Nada disso em Santa Teresa: ali o bond é um verdadeiro leva-e-traz, não se detém a brincar no caminho, como um estudante vadio.
E se depois do que fica dito, não houver uma alma caridosa que diga que eu tenho em Santa Teresa uma casa para alugar-palavra de honra! o mundo está virado.








quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Uma Obra-Prima: Asa Branca na voz de Caetano Veloso

Cinzas do Passado - Wong Kar-Wai


Assistir Cinzas do Passado, hoje a tarde, foi como dar um mergulho nos impérios dos sentidos, dos sentimentos e da memória, três elementos que o diretor ativa insistentemente com seu cinema pulsante. Três elementos imprescindíveis para o entendimento da experiência humana
Do premiado Wong Kar-Wai é filme para poucos. Com uma trama que volta no tempo através do off das memórias do narrador, a história se desenrola em ritmo lento e no idioma original. O que pode ser mais um complicador para quem está acostumado ao “cinemão” americano. Mas o maior destque mesmo é o estilo de filmar cheio de cortes bruscos e, diálogos, às vezes curtos e quase sempre enigmáticos.O que para os amantes do bom cinema é uma delícia.
Kar-Wai realizou um filme de espadachim (wu xia), uma tradição chinesa que se popularizou mais no ocidente através de filmes como O Tigre e o Dragão. A história é contada por um matador de aluguel que revela para o espectador suas experiências de vida ao lidar com a morte. Para situar o espectador no tempo, utiliza-se legendas e as histórias acontecem nas estações do ano.
As cenas de ação são as típicas do gênero, sempre explorando algum detalhe das lutas, através do uso incessante da câmera lenta. A fotografia usa e abusa de recursos para explorar as cores,que criam uma obra de arte a parte. O resultado é singular.Destaque para a tomada em que é possível ver dois reflexos distintos em um espelho de água. Bela cena. Usada mais de uma vez.
Cinzas do Passado Redux é uma história de amor não correspondido. Mais do que isso, talvez, de um amor não entendido. Fala sobre perder chances na vida e querer recuperá-las. “Seria bom voltar ao passado”, diz um personagem. Ou, “a memória é a raiz dos problemas do homem”, diz outro.

 O Filme será exibido novamente na mostra Cineastas Contemporâneos - Wong Kar-wai, no dia 12 de novembro às 19h na Caixa Cultural - Av Almirante Barroso, 25, ao lado do metrô Carioca. 

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Happy Together de Wong Kar-wai - Cucurrucucu Paloma

FELIZES JUNTOS (Chun Gwong Cha Sit, Hong Kong/Japão/Coréia do Sul, 1997, 98’) Principais prêmios: Melhor direção no Festival de Cannes/1997; Melhor ator (Tony Leung Chiu-wai) no Hong Kong Film Awards/1998.


Em algum momento em 1996, enquanto Hong Kong vive a expectativa de ser devolvida à China, dois amantes homossexuais optam pelo exílio na Argentina. Viajam pelo interior. Não encontram as Cataratas do Iguaçu, o carro quebra e os dois decidem se separar. Já em Buenos Aires, eles reatam e se separam sucessivamente – no ritmo do instável e infiel Ho Po-wing. O melancólico Lai Yiu-fai tenta recomeçar a vida sem o parceiro. Ao trabalhar na cozinha de um restaurante, ele inicia uma forte amizade com Chang, jovem de Taiwan de passagem por Buenos Aires. Quando Chang parte rumo a Ushuaia, no extremo sul do continente, Yiu-fai decide ir ao norte. Ele quer conhecer as Cataratas, afinal.

 O Filme será exibido na mostra Cineastas Contemporâneos - Wong Kar-wai, no dia 14 de novembro às 16h na Caixa Cultural - Av Almirante Barroso, 25, ao lado do metrô Carioca.

Projeto Toca-Livros



O Toca-livros, projeto que apresenta a música do Brasil contada e tocada a partir dos livros volta a ser apresentado ao público carioca no Centro Cultural da Caixa (Av. Almirante Barroso, 25 – Centro – Rio de Janeiro/RJ) após passar por Salvador. De 09 de novembro a 15 de dezembro, sempre às terças e quartas-feiras, às 19h30, o projeto apresenta a vida e a obra de doze artistas, a partir do relato ao vivo de autores e da participação do público, com entrada franca. Em novembro, a programação será aberta no dia 09 por Rodrigo Faour, que vai falar sobre Cauby Peixoto. As senhas são distribuídas uma hora antes.


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sobre todos aqueles que continuam tentando, Deus, derrama teu Sol mais luminoso




"Deus, se é que existe, anda distraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.
Queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o planeta terra, e especialmente sobre a cidade de São Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta e guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete? - e outro grunhe em resposta.
Deus, põe teu olho amoroso sobre todos que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem - nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.
Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel tão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de táxi que confessa não ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto - olha por todos aqueles que queria ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem.
Não esquece do rapaz viajando no ônibus com seus teclados para fazer show na Capital, deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma - sobre esses que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.
Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio - Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminoso. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada."
                                                    Caio Fernando Abreu - em Pequenas Epifanias

Nina Simone "Feelings" (Montreux Jazz Festival)

 A primeira vez que vi esse vídeo, fiquei maravilhado e chorei.
 Aqui vemos Nina Simone, para mim a maior cantora que esse planeta já teve (desculpem-me os fãs de Billie Holiday e Sarah Vaughan), no Montreux Jazz Festival 76, esfacelando de maneira magistral a canção Feellings.


Olhando pela janela - Fausto Fawcet

Edward Hopper

Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. 
Não vejo arranhões no céu nem discos voadores.
Os céus estão explorados mas vazios.
 Existe um biombo de ossos perto daqui. 
Eu acho que estou meio sangrando. 
Eu já sei, não precisa me dizer. 
Eu sou um fragmento gótico. 
Eu sou um castelo projetado.
 Eu sou um slide no meio do deserto. 
Eu sempre quis ser isso mesmo.
Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. 
Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv.
Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. 
Quando eu beijo eu improviso mundos molhados.
Aciono gametas guardados. 
Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. 
Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca andróide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador.

Fausto Fawcet 

Bethânia e as Palavras





 O trecho da música Língua de Caetano Veloso, "Gosta de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões,gosto de ser e de estar,e quero me dedicar a criar confusões de prosódia, e uma profusão de paródia que encurtem dores e furtem cores como camaleões.Gosto do Pessoa na pessoa,da rosa no Rosa, (...) minha pátria é minha língua" define perfeitamento o amor de Maria Bethânia por nossa língua portuguesa.

Ansiosos, aguardavamos o início do show Bethânia e as Palavras, no parque das ruínas em Santa Teresa, na noite de 06 de novembro de 2010, no Rio de Janeiro. Quando Maria Bethânia subiu ao palco, com os pés sempre descalços, o silêncio tomou conta do ambiente, para, em seguida, ser cortado por aplausos e gritos elogiosos.

Bethânia, mãos ao alto, óculos no rosto, longe do microfone, no centro do palco, canta, à capela, com sua voz híbrida, um trecho de música em reverência a Iansã, deusa africana dos ventos e das tempestades. O público torna a ficar em silêncio, aguardando o próximo gesto da cantora, que, de tão imponente, lembra o próprio orixá de que é devota. Tomando o microfone, a intérprete abre o espetáculo assumindo seu amor pela palavra falada, confessando a alegria de estar em uma noite de chuva, ela gripada, em Santa Teresa " das rosas" para fazer leitura de textos.

Mesclando canções, Bethânia lê dramaticamente, acompanhada do maestro Jaime Alem ( que nas palavras de Bethânia, está em casa, o mesmo é morador de santa teresa), do percussionista Marcelo Costa, de poetas e escritores que marcaram sua vida: Sophia de Mello Breyner Andersen, Cecilia Meireles, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Fausto Fawcett, Wally Salomão, Cacaso, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa. "O palco é sempre lugar de aprender", afirma Bethânia, para em seguida cantarolar um trecho da música “O que é? O que é?”, de Gonzaguinha: "Viver! / E não ter a vergonha / De ser feliz ".

Apresentada às palavras pelo professor Nestor de Oliveira, mestre de sua cidade natal, Santo Amaro da Purificação, no interior da Bahia, Bethânia expõe sua intimidade com textos de escritores e poetas, principalmente com Fernando Pessoa - cuja reverência rendeu à Maricotinha a Ordem do Desassossego, da Casa Fernando Pessoa, em Portugal. “Mesmo estudando no recôncavo da Bahia, é possível se encantar com as palavras. É uma prova que é possível uma educação plena”, diz a cantora, que dedicou o espetáculo a suas mestras Teresa Aragão (ex-mulher de Ferreira Gullar) e Violeta Arraes.

Bethânia começa nos igarapés, igarapós, iaras, pajés e Tupã, faz a viagem inversa do descobridor português e navegando no mar de Pessoa e Sophia descobre Portugal no fado de Amália, volta a Brasil no navio negreiro, "vou aprender a ler, para ensinar meus camaradas", e reencontra o Brasil antropofágico de Mário de Andrade, Manoel Bandeira, e caindo numa tocaia na várzea do Grande Sertão: Veredas, para gritar: Sim, eu amo Diadorim.


Entre versos e canções, no palco, Maria Bethânia é a "Iansã das palavras”.



Aqui o roteiro do show:

1. Iansã (Caetano Veloso e Gilberto Gil)
2. Distribuição de Poesia (Jorge de Lima)
3. Texto de Apresentação (Maria Bethânia)
4. Comida (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto)
5. Yayá Massemba (Roberto Mendes e Capinam)
6. Mestre Não É... (Guimarães Rosa)
7. Poesia (Antonio Vieira)
8. Vou Danado pra Catende (Ascenso Ferreira)
9. Trenzinho do Caipira (Heitor Villa-Lobos e Ferreira Gullar)
10. Trem de Ferro (Manuel Bandeira)
11. Cirandeiro (Domínio público)
12. Comboio Malandro (Antônio Jacinto)
13. Berimbau (Manuel Bandeira)
14. Dona do Dom (Chico César)
15. Seleção de textos de Patativa do Assaré
16. Último Pau-de-Arara (J. Guimarães e Venâncio Corumbá)
17. ABC do Sertão (Luiz Gonzaga e Zé Dantas)
18. Os Argonautas (Caetano Veloso)
19. "Nessa Vida em que Sou meu Sono..." (Álvaro de Campos)
20. Marinheiro sem Mar (Sophia de Mello Breyner Andersen)
21. Marinheiro Só (Domínio público. Adapt. de Caetano Veloso)
22. Poema de um Funcionário Cansado (Ramos Rosa)
23. Passagem das Horas (Álvaro de Campos)
24. "Mestre, meu Mestre Querido..." (Fernando Pessoa)
25. Estranha Forma de Vida (Amália Rodrigues)
26. "Apesar das ruínas e da morte" (Sophia de Mello Breyner Andersen)
27. O Sino da Minha Aldeia (Roberto Mendes e Fernando Pessoa)
28. "O Tejo É Mais Belo..." (Alberto Caeeiro)
29. "Lembro-me de Quando Era Criança..." (Fernando Pessoa)
30. Ciranda da Rosa Vermelha (Domínio público)
31. Aniversário (Álvaro de Campos)
32. Metamorfose da Casa (Eugênio de Andrade)
33. Chácara (Manuel Bandeira)
34. Ciclo (Caetano Veloso e Nestor de Oliveira)
35. Sala Sunyata (Waly Salomão)
36. Texto de Maria Bethânia II
37. "Eu Tenho uma Espécie de Sonhar Sempre..." (Fernando Pessoa)
38. Genipapo Absoluto (Caetano Veloso)
39. Poema do Menino Jesus (Alberto Caeeiro)
40. Cálix Bento (Domínio público)
41. Texto de Maria Bethânia III
42. Ladainha de Santo Amaro (Mabel Velloso)
43. Romaria (Renato Teixeira)
44. Para um Amigo (Ramos Rosa)
45. Texto de Maria Bethânia IV
46. Brincar de Pulsar (Fausto Fawcett)
47. Texto de Ferreira Gullar
48. Há uma Gota de Sangue no Cartão Postal (Cacaso)
49. Encontro ou Amor (Fausto Fawcett)
50. Um Deus Também É o Vento (Paulo Leminski)
51. Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa) - trecho
52. Amor de Índio (Beto Guedes)
53. Quero Ser Tambor (Craveirinha)
54. Salve as Folhas (Gerônimo)
55. O Poeta Come Amendoim (Mário de Andrade)
56. De Papo pro Ar (Joubert de Carvalho e Olegário Mariano)
57. Os Sapos (Manuel Bandeira)
58. Canto do Pajé (Heitor Villa-Lobos e C. Paula Barros)
59. "Mudei o meu Nome..." (Rui Cinati)
60. Texto de Maria Bethânia V
61. Citações de Rosiana (Guimarães Rosa)
62. Sonhei que Estava em Portugal (Moraes Moreira)
63. Língua (Caetano Veloso)
64. Pátria Minha (Vinicius de Moraes)
65. João Valentão (Dorival Caymmi)
66. "E Depois de uma Tarde..." (Clarice Lispector)
67. Dedicatória a Violeta Arraes e a Thereza Aragão

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Teatro Oficina no Rio


Taniko, O Rito do Mar, Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!!, Bacantes e O Banquete, em sessões únicas, e Oficinas Uzynas Uzonas por oito capitais brasileiras durante 2010.

Próxima estação Rio de Janeiro

A partir de 5 de novembro o carro naval de Dionísio aporta no Rio de Janeiro para a quinta etapa das Dionisíacas em Viagem.

No Rio a agenda será a seguinte:

A partir do dia 5 serão realizadas Oficinas Uzynas Uzonas em local ainda a definir. São 9 oficinas que abrangem diferentes áreas da criação artística realizada pelo Oficina. A descrição abreviada dessas vivências pode ser obtida no link:  http://teatroficina.uol.com.br/posts/395

Do dia 12 ao dia 15 a Cia. apresenta os quatro espetáculos do repertório no Teatro Extádio Rio de Janeiro ( Terreirão do Samba).

Taniko (12/11, as 20h)
Estrela Brazyleira a Vagar – Cacilda!! (13/11, as 18h)
Bacantes (14/11, as 18h)
O Banquete (15/11, as 19h)

Madame Satã

Domingo a noite, nada melhor do que ficar na cama e ver um bom filme, nesse caso, rever, o escolhido foi Madame Satã, obra do diretor cearense Karin Aïnouz.


Com clima negro e tenso e cenas fortes, o roteiro, também de Aïnouz, conta a história de João Francisco dos Santos, mais conhecido como Madame Satã, um artista transformista que sonha em se tornar um grande astro dos palcos. A história, que se passa no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro em 1932, é baseada no mito real, e retrata o ambiente vivido por João e as pessoas que o rodearam, bem como seus amigos e inimigos. Ele viveu numa casa de aparência muito pobre num bairro de prostituição (Lapa), com Laurita, uma prostituta, a bebê Firmina, filha de Laurita e Tabu, um amigo. Viveu também uma paixão problemática, censurada e proibída com Renatinho, que se mostrará um traidor e “mercenário”. Foi assim a vida de João Francisco dos Santos, que posteriormente irá se autodenominar Madame Satã, nome retirado do filme “Madam Satan (1932)”, de Cecil B. deMille, que João viu e adorou. Como se não bastasse as qualidades técnicas constantes em todo o filme, o diretor e roteirista ainda insere em sua obra diálogos ótimos, todos que expressam intimamente a personalidade de cada personagem. Por vezes fortes, por vezes sensíveis, eles sempre vêm em hora certa para fortificar emocionalmente ainda mais uma cena ou seqüência. Diálogos os quais citados isoladamente, sem contexto, podem até não ter vida ou sentido. Em meio a uma briga, por exemplo, o personagem-título do filme diz: “Sou bicha mas não deixo de ser homem por causa disso, não”.
 O forte do longa está mesmo em seus diálogos ou em suas cenas de sexo e violência verbal. Como um dos pontos fortes do filme, o elenco, que é liderado por Lázaro Ramos, um ator completo e que interpreta brilhantemente bem o protagonista João Francisco. Em seu papel, Lázaro constrói seu personagem perfeitamente ao claro objetivo do roteiro, que é a de um homem obscuro, violento, temperamental, mas que esconde um homem que sabe amar a todos, sejam eles homens, mulheres ou crianças e tem um incrível carinho ao dono do bar Danúbio Azul, no qual pretende trabalhar. E a quem ele ama, é capaz de dar sua própria vida. Além de tudo, João é sonhador e seu sonho é ser uma estrela da noite carioca ao dançar e cantar. Sua atuação final, diga-se de passagem, é memorável acompanhada de ótima música. O ator também mostra sua flexibilidade, que é um de seus mais admiráveis pontos, em uma cena, na qual está muito feliz pois irá com seus amigos ao um bar “chique” da cidade e que, um minuto mais tarde, se transforma praticamente em outra pessoa, mudando bruscamente de temperamento. Além de Lázaro Ramos, merecem destaque Laurita, amiga de João, interpretada por Marcélia Cartaxo, Tabu, amigo de João, interpretado por Flávio Bauraqui e Renatinho, amante de João, interpretado por Felippe Marques. Marcélia, primeiramente, interpreta ótima e exemplarmente Laurita, uma mulher incompleta e que se arrepende por ter tido uma filha, cujo verdadeiro pai a menina não irá conhecer, e que vê em seus amigos, Flávio e João, as únicas pessoas que tem em sua vida. Flávio Bauraqui, segundamente, interpreta o homossexual Tabu, um personagem difícil, porém não mais complexo que João. Aqui, Flávio tem que mostrar seu talento ao retratar uma pessoa que tenta, de todas as maneiras, esquecer os problemas e apagar alguns traumas do passado dos quais se arrepende até os dias de hoje. E finalmente, Felippe Marques mostra seu ótimo talento ao incorporar o personagem Renatinho, inicialmente amante de João, que se tornará um interessante inimigo. A atuação deste é a mais forte e dona de um dos melhores momentos do longa, o qual ele e João se conhecem e têm sua primeira relação sexual juntos. Desde os primeiro olhares trocados pelos dois, sentimos a vibração e talento emanados pelos atores, quão natural se fizeram a cena. Obs.: A ausência da trilha sonora aqui é primordial. Tudo isso com ótima fotografia de Walter Carvalho, que revela bem todos os ambientes escuros nos transpotando a sujeira da Lapa dos anos 30. A Direção de Arte, por Marcos Pedroso, constrói ótimos cenários da época, visando reviver os bares e casas de prostituição da região. Pedroso foi feliz, principalmente, ao construir o quarto de João, onde ele recebe seus “clientes” ou amantes. Raro acontecer em obras nacionais, a maquiagem também merece seus elogios, por transformar naturalmente bem os personagens transformistas. Resumindo, o filme traz uma bela e memorável (assim como todas) atuação de Lázaro Ramos, bem como uma trilha sonora irretocável.