domingo, 31 de outubro de 2010

Primeira revista gay em árabe é lançada clandestinamente




"Mithly" não é uma revista como as outras, mas não porque deve ser lida da direita para a esquerda. Lançada em abril, é a primeira revista gay a circular em árabe num país de maioria muçulmana, o Marrocos. O pioneirismo conseguiu uma divulgação inédita para a causa, mas vem causando polêmica nos jornais locais e o silêncio do governo do rei Mohammed 6º. No país, "atos licenciosos ou contra a natureza cometidos com indivíduos do mesmo sexo" podem ser punidos com prisão de seis meses a três anos, além de eventuais mul

O site da revista (mithly.net), em árabe, já atingiu, desde sua criação, mais de 1 milhão de visitantes únicos, segundo Samir Bergachi, redator-chefe da "Mithly". Mas o fenômeno mesmo é que os 200 exemplares impressos em Madri e distribuídos em Rabat, a capital marroquina, de mão em mão, gratuitamente, na mais rigorosa clandestinidade, viraram notícia na Europa e nos EUA. O impacto do papel e de ser escrito em árabe clássico deu destaque internacional à revista, que deixou de ser uma rede de militância na internet para se tornar um instrumento de ação política inédito no mundo islâmico.


IGUAL A MIM

Para batizar a revista, foi necessário também sustentar o uso de um termo novo. "Homossexual" não tem equivalente em árabe, a não ser os pejorativos "zamel" (efeminado) ou "chaddh" (perverso). "Mithly" -- em tradução literal, "igual a mim" -- ganhou o que os especialistas chamam de "nova carga semântica", quando um sufixo ("y") amplia o significado de uma palavra já existente ("mithl", igual).

A publicação é iniciativa da associação Kif Kif, legalizada em 2005 na Espanha. Mais do que uma rede de contatos entre compatriotas gays de Madri, Paris, Roma e Montréal, os fundadores, todos marroquinos expatriados, pretendiam interferir na vida do país que deixaram para trás. A sede da organização em Rabat tem três mil inscritos, segundo seus líderes. A identidade dos associados permanece escondida; a Kif Kif nem sequer é legalizada no país. "O governo não responde nossas cartas", diz Bergachi, estudante de jornalismo da Universidade Complutense de Madri. "O que temos é o silêncio."

Escritórios fora do Marrocos, com 50 a 60 militantes em média, captam pequenas doações que, sozinhas, mantêm o site, a consultoria legal e, mais recentemente, a revista "Mithly".

EFEBOS E CORTESÃS

Embora escorada na tradição, a atual cultura repressiva nos países muçulmanos é um dado cultural relativamente novo, associado à recente islamização política. Abdellah Taïa cita o poeta árabe Abu Nuwas (756-814), que escrevia cânticos de amor aos rapazes. "É um clássico, e ainda é estudado nas escolas públicas", diz ele. "Todos sabem que era homossexual."

O mesmo acontece com Al-Jahiz (781-869), que escreveu um livro sobre "efebos e cortesãs", "um diálogo entre homens que amam mulheres e homens que amam homens". Nas "Mil e Uma Noites" (os manuscritos datam dos séculos 9º ao 18), não faltam histórias que narram, metaforicamente, relações de amor sensual entre pessoas do mesmo sexo. Não se trata de querer ver uma linhagem gay na tradição literária árabe. Segundo Mamede Mustafa Jarouche, 47, que assina a mais recente tradução brasileira do "Livro das Mil e Uma Noites" (Editora Globo) e dá aulas de árabe na USP, "nos tratados eróticos clássicos, e em boa parte da narrativa literária, não há exatamente uma visão essencialista sobre a escolha do parceiro". Jarouche, que morou no Cairo, conta que, em 2000, uma editora do governo egípcio teve a gráfica invadida por fundamentalistas que rasgaram livros de Abu Nuwas, que viveu, vale repetir, no século 8. E em 2001, na feira do livro do Cairo, houve uma tentativa de censurar a tradução árabe de "A sexualidade no Islã" (1975), do tunisiano Abdelwahab Bouhdiba, publicado no Brasil pela editora Globo.

SE PECOU, NÃO DIVULGUE

Para a comunidade islâmica do Brasil, a tentativa de moralizar a literatura é uma volta aos "critérios claros" da religião. Um de seus líderes, o xeque Jihad Hassan Hammadeh, 44, diz que não há margem para dúvida na interpretação da lei corânica. "Homossexualidade é proibida, é pecado."

Nascido na Síria e vivendo em São Paulo desde 1991, o xeque não comenta os casos que ocorrem na comunidade islâmica que dirige. Mas não deixa de ser um tanto brasileira a solução que propõe: para ele, a religião dá ao crente a possibilidade de não divulgar seu pecado, para que haja espaço para voltar atrás. Assim, o acerto de contas acontecerá entre o fiel e Deus. "Se pecou, não divulgue."

COLONIALISMO MILITANTE

Os marroquinos da "Mithly" estão divulgando, e além da repressão do Estado, recebem objeções intelectuais: publicar uma revista gay poderia ser um programa elitista e ocidental.

Paulo Hilu Pinto, 42, antropólogo da Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista na Síria contemporânea, enxerga o risco de "colonialismo militante" que pode haver na iniciativa. "O movimento gay organizado é libertador para quem?", questiona. "Um morador da periferia, que faz sexo com parceiros do mesmo sexo, pode nunca ter se enxergado assim." Hilu Pinto acredita que, com a moral religiosa, o gay pobre acaba se vendo como pecador. Os editores da "Mithly", de fato, pertencem a uma elite intelectual que mora e estuda na Europa. Os escassos 200 exemplares que circularam na capital marroquina não deixam de ser um sinal de elitismo, embora a íntegra da revista esteja disponível (e de graça) na internet clique aqui para ler. Mas não importa a tiragem: a mera existência da revista já é um respiro no abafado ambiente cultural do Marrocos.

INTEGRAR

O sociólogo marroquino Mohammed Mezziane, 47, afirma que a "Mithly" não propõe uma ruptura com o Estado ou com a religião. Pelo contrário, seu objetivo é integrar o discurso homossexual na vida do país. Cautelosos, os editores da revista ainda não reivindicam os temas da pauta ocidental, como o casamento gay ou as pensões e planos de saúde para parceiros do mesmo sexo.

O número 2 da "Mithly" sairá nesta terça, 1º/6, apenas na internet, com reportagem sobre o alto índice de suicídio entre os homossexuais. O terceiro número está prometido para o papel: julho é o mês do orgulho gay, e também é o aniversário de cinco anos da associação Kif Kif. Os editores preparam uma reportagem sobre o lesbianismo no mundo árabe, história ainda mais escondida. Samir Bergachi, o redator-chefe, diz que quando os tradicionalistas querem mostrar os riscos da descriminalização da homossexualidade no Marrocos, exibem imagens do Carnaval carioca.

A associação Kif Kif, segundo Bergachi, foi convidada para participar do congresso internacional de direitos LGBT, em 2011, no Rio de Janeiro. "Finalmente vou conhecer o Rio", comemora.
 Fonte: Ilustríssima, Folhaonline.

sábado, 30 de outubro de 2010

Poema dum Funcionário Cansado - António Ramos Rosa

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

Hiroshima Mon Amour



Em Hiroshima Mon Amour, de Alain Resnais, desde o primeiro diálogo do filme entre os amantes, o espectador lança-se nessa nova modalidade lírica. É um diálogo de conflito, de oposição e de luta amorosa, este fala sobre a guerra, bem antes de falar de amor: “- Ele - Tu não viste nada em Hiroshima. Nada. - Ela - Vi tudo. Tudo. O hospital por exemplo, vi-o . Tenho certeza. O hospital existe em Hiroshima. Como poderia eu ter deixado de o ver? - Ele - Tu não viste nenhum hospital em Hiroshima.”

Por esses diálogos iniciais introduz-se no cerne do tema problema: as interrelações entre o amor e a guerra. O primeiro passo, a abertura do lirismo, consiste em situar-se em face do conflito sobre uma realidade social e política - Hiroshima. Este conflito que se traduz pela dialética entre as afirmações da mulher e as negações do homem. E esse lirismo combativo vai exigir uma atitude crítica do espectador.

A tragicidade que se encarna em “Hiroshima Mon Amour” se manifesta através de um conflito permanente e sempre radical. E este conflito, que é vivido e conscientizado, fruto de uma reflexão emotiva, se revela como luta entre as possibilidades humanas e uma realidade intransponível. Considerando a personagem de E.Riva face a face consigo mesma, temos a luta entre as possibilidades humanas - suas forças internas, suas paixões, sua lucidez - e uma realidade inelutável, insuperável. Entre as possibilidades humanas, estão: o desejo de permanecer, de guardar, de sempre lembrar, de manter uma memória acesa, de garantir o reconhecimento de si mesmo, de amar fortemente. Como realidade intransponível, correspondendo modernamente ao “destino” nas tragédias gregas, se vive e se conscientiza o tempo com sua dimensão de fuga, de esquecimento, de infidelidade ao amor que se desejava reter, mesmo à custa da loucura.

O trágico vai consistir, sobretudo e essencialmente, no contraponto entre a veemência do “discurso” e o drama dos personagens - nessas cenas, tornado mais intensamente pessoal. É a partir desta sequência que o personagem masculino experimenta o primeiro desejo de permanência: - “Não gosto de pensar na tua partida. Amanhã. Parece-me que estou apaixonado por ti”. Então, os elementos da tragédia se manifestam ou se acham entre a objetividade cruel da destruição de Hiroshima e a possibilidade (ou a impossibilidade) humana de findar o amor - ou de perdê-lo.

Entretanto, quem mais e melhor encarna a tragicidade da condição humana é a personagem de E. Riva. Sua mobilidade fisionômica ou a “metamorfose de seu rosto” servem para transmitir - num dos raros momentos da história do cinema - as verdadeiras situações-limite da existência humana: a plenitude da adolescência (Ele: “Em Nevers foste tão jovem... tão jovem que ainda não pertencias a ninguém”); a descoberta do primeiro amor; o sofrimento diante da morte do soldado alemão(Ela: “Raspar a cabeça a uma rapariga porque ela amou um inimigo declarado do seu país é um absoluto tanto do horror como da estupidez”); a experiência de loucura (Ela: “É como a inteligência, a loucura, tu sabes, não se pode explicá-la”); a consciência de como é fatal o esquecimento; a tentativa de auto superação (o amor-síntese com o arquiteto japonês); a inconclusão da existência humana (o filme termina com uma esperança reticente). Para Margueritte Duras não tem sentido procurar saber se “ela ficou ou partiu”. O final de Hiroshima Mon Amour é imprevisto, intencionalmente inacabado, como a própria existência humana.

Escolheu-se o absoluto dessa “desgraça pessoal” porque ela nos atinge na tragicidade de nossa condição humana. É esta significação de tragédia que une “o primeiro amor” em Nevers ao amor da maturidade em Hiroshima. Deste amor maduro, com todo o seu impacto de sinceridade e amargura, de acaso e de “necessariedade”, representado pelo encontro-reconhecimento-confissão-fracasso de todo o filme: Ele - “Dentro de alguns anos, quando te tiver esquecido e histórias como essa acontecerem ainda pela força do hábito, lembrar-me-ei de ti como a essência do esquecimento. Sei que hei de pensar assim”. Nunca um personagem conseguiu ser tão lúcido diante da amargura; tão cruel, embora sem ressentimento; tão reflexivo e ao mesmo tempo tão emotivo. Esta “fala” também é síntese de todo o filme, desde que nela está condensada todo o sentido da tragédia contemporânea.

Em conjunto, o filme exprime uma das características essenciais da obra trágica: a catarse. A longa cena do bar, onde a memória retrospectiva vai aos poucos sendo absorvida pela atualidade dos personagens, atinge seu clímax com a identificação do japonês com a figura do primeiro amor. Esse efeito “catártico” - de libertação, de “purificação” - prossegue com a maior das intensidades na última sequência. São “monólogos”, quer diante do espelho do quarto, quer sobretudo através das ruas de Hiroshima em fusão com as de Nevers. Solidão e monólogo interior como formas de “situação-limite”. Monólogo sobre o tempo e o esquecimento: - “O tempo passará. O tempo apenas. E mais tempo há de vir. O tempo virá. E então não saberemos que nome dar ao que nos unirá. O nome apagar-se-á a pouco e pouco da nossa memória. Depois desaparecerá por completo”.

O trágico de não ter morrido em Nevers; o trágico de ter podido contar a história do primeiro amor; o trágico de já pressentir o esquecimento desse amor novo e maduro; o trágico de, enfim, depois de um penoso anonimato, reconhecerem-se: Ela - “Hiroshima é teu nome. Ele - “É meu nome. Sim. Teu nome é Nevers”

O trágico de, após tão grande sofrimento, ninguém saber - porque ninguém soube nunca - se haverá permanência ou esquecimento. O trágico de, até hoje, cada vez menos sabermos quando novas cinzas destruirão outra Hiroshima.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Eros e Psique


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Vem Comigo



 

vem comigo
ver as pirâmides fantásticas do vento
no interior luminoso da terra encontrarás
o segredo de quartzo para desvendares o tempo
onde contemplamos a fulva doçura das cerejas

iremos para onde os restos de vida não acordem
a dor da imensa árvore a sombra
dos cabelos carregados de pólenes e de astros
crescemos lado a lado com o dragão
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforma e morre
e já não nos pertence

vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel

vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu



Al Berto
(in O Medo)

A Casa dos Beijos


   

Iam os dois pela rua, de mãos dadas. Dir-se-ia que não pisavam o chão. Dir-se-ia que deslizavam, que vogavam, que voavam. A felicidade estava-lhes cunhada nos rostos; e também nos gestos, nos sorrisos, no olhar. Iam de mãos dadas pela rua e iam muito felizes.

    Ela tinha os cabelos longos e soltos, o tronco alto. Os seios puxados para a frente, as pernas esbeltas e livres, saias curtas. Ele era um pouco mais alto, um pouco apenas, camisa aberta, calças de ganga, uma pequena mala, daquelas malas dos antigos guarda-feios da Carris, a tiracolo. Isso: a mala estava a tiracolo, e eles iam muito felizes, os dois, de mãos dadas.

    Nem sequer reparavam que muitas pessoas os observavam. Algumas pessoas com a conivência de um sorriso. Outras pessoas com um ressaibo de inveja, no olhar de esgelha. Pararam um pouco em frente à Pastelaria Suiça, no Rossio, ele disse qualquer coisa a ela, ela encolheu os ombros. Não deixavam de sorrir enquanto conversavam. Depois entraram e beberam café.

    A esplanada da Suiça estava cheia de sol e de estrangeiros. Um vendedor de lotaria ofereceu jogo. Um rapaz sujo pediu algum dinheiro. Dois homens encontraram-se e abraçaram-se com efusão. Uma mulher apressada deu um encontrão num cego. Um cigano tentava vender relógios. Um polícia contemplava as coisas com evidente indiferença.

    O rapaz e a rapariga decidiram, depois de tomar café, passear pelo Rossio. Estavam muito felizes. E é bom que se repita isto, porque as pessoas, habitualmente, andam para aí cheias de infelicidade, ao menos que haja alguém feliz, mesmo que seja uma ou duas pessoas.

    Passeavam pelo Rossio e, de vez em quando, davam beijos, sempre sorrindo um para o outro, como se estivessem a sorrir para todo o mundo, e todo o mundo experimentava uma grande sensação de espanto e de júbilo. Paravam junto as montras do Rossio, olhavam, claro, mas não fixavam nada do que nas montras se expunha, só sabiam um do outro, só estavam ali juntos para apenas estar um com outro, juntos e assim mesmo: de mãos dadas e aos beijos.

    Foi numa dessas ocasiões. Beijavam-se tão felizes, tão um do outro, que essa felicidade molestou uma senhora obesa e flácida. A senhora obesa e flácida estacou, indignada, a fuzilá-los com as balas do ódio. E gritou:

    - Não podiam fazer isso em casa?

    A rapariga dos longos cabelos e seios puxados para a frente deixou o beijo a meio. O rapaz experimentou uma estranha sensação de pasmo. Olharam-se. E foi então que a rapariga respondeu, indicando tudo em derredor:

    -  Esta é a nossa casa!

    Nesse instante témulo, o mundo feliz, começou a aplaudir.


  Baptista-Bastos
 Lisboa Contada pelos Dedos

LIVRO CORPO - A AGENDA

                                                             
                                                              (escrito no corpo de Jerome)

Pescoço:
Eu quero descrever o Corpo como um Livro
Um Livro como um Corpo
E este Corpo e este Livro
Será o primeiro Volume
De Treze Volumes.

Caixa Torácica
A primeira grandeza do livro está no torso
Sede dos pulmões
Que sopra o vento que seca a tinta.
Sede do coração
Que bomba a tinta
Que é sempre vermelha
Antes que seja negra
O coração e dois pulmões são mantidos retos
Perto, mas não se delimitando
Protegidos pela cobertura da caixa torácica,
Cobertos por enegrecidos títulos de papel como marca d’água
O sopro da inspiração corre entre eles
Desenhados do ar por sua influência conjunta.

Nuca ao Cóccix
Nenhuma função do livrocorpo é singular
Se um serviço múltiplo puder ser realizado.
Assim o ar da inspiração
Divide a mesma passagem
Com sais, palavras,
Sentenças, adoçantes, parágrafos
Todos desmoronam em agitação nas páginas ruminantes,
Para jazer em fileiras seriadas como hastes de arroz
Num campo, ou os pontos da costura num tatami,
Pacientemente aguardando irrigação
Por água ou visão
Mesmo que em mil anos não surja um leitor.

Barriga
A segunda grandeza do livro está na barriga,
Fábrica para a mistura dos materiais,
Um laboratório de seleção e fiação,
Retendo e relembrando,
Uma editora em fluxo contínuo,
Estampada com o corte denteado do umbigo,
Raramente ocioso, nunca parado,
Dividindo o espaço com preparações
Para o futuro com a ironia da economia.
Futuro e passado partilhando a mesma rodovia.
Livrocorpo sempre mostrando, na sua história, evoluções.

Pênis e Escroto
Eu sou a muito necessária
Coda.
O pedaço-rabo,
O sempre reprodutor
Epílogo.
O derradeiro parágrafo pendente
Esta é a razão
Para que o próximo livro
Brote.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Jorge Luís Borges

          

"Na infância pratiquei com fervor a adoração ao tigre; não o tigre cor de pêssego dos camalotes do Paraná e da confusão amazônica mas o tigre rajado, asiático, real, que só pode ser enfrentado pelos homens de guerra, encastelados sobre um elefante. Costumava demorar-me infindavelmente diante de uma das jaulas no Zoológico; apreciava as vastas enciclopédias e os livros de história natural pelo esplendor dos seus tigres. (Lembro-me ainda dessas figuras: eu que não posso recordar sem horror o rosto ou sorriso de uma mulher). A infância passou, caducaram os tigres, e a paixão por eles, mas eles ainda permanecem em meus sonhos. Nessa lembrança submersa ou caótica, continuam a prevalecer, e assim: adormecido, um sonho qualquer distrai-me e eu sei de imediato que é um sonho. Costumo então pensar: Este é um sonho, uma pura diversão de minha vontade e, já que tenho um poder ilimitado, vou produzir um tigre.
    Oh incompetência! Meus sonhos nunca sabem engendrar a apetecida fera. Aparece o tigre, isso sim, mas dissecado e débil, ou com impuras variações de forma, ou bastante fugaz, ou tirante a cão e a pássaro. "

domingo, 24 de outubro de 2010

Madredeus - o sonho

Amizade, por Caio Fernando Abreu


"Para mim, atualmente, companheirismo e lealdade são meio sinônimos de felicidade. Meus amigos são muito fortes e muito profundos, são amigos de fé, para quem eu posso telefonar às cinco da manhã e dizer: olha, estou querendo me matar, o que eu faço? Eles me dão liberdade para isso, não tenho relações rápidas, quer dizer, tenho porque todo mundo tem, mas procuro sempre aprofundar. E isso é felicidade, você poder contar com os outros, se sentir cuidado, protegido. Dei esse exemplo meio barra pesada de me matar....esquece, posso ligar para ver o nascer do sol no Ibirapuera às cinco da manhã. Já fiz isso, inclusive."

sábado, 23 de outubro de 2010

Yukio Mishima - Confissões de uma Máscara

Eu acabei de ler Confissões de uma Máscara, romance auto-biográfico de Yukio Mishima, polêmico escritor japonês autor de dezenas de romances, poesias, peças e ensaios políticos e filosóficos.

Yukio MishimaYukio Mishima nasceu em Tóquio em 1925, filho de um oficial do governo. Seu nome verdadeiro é Hiraoka Kimitake. Considerado o mais importante escritor japonês do século XX, Mishima escreveu dezenas de romances, poesias, peças e ensaios políticos e filosóficos. Foi indicado três vezes ao prêmio Nobel de Literatura. Entre suas obras primas estão O Templo do Pavilhão Dourado (1956) e O Mar da Fertilidade (1965). Explorou tanto temas da cultura oriental como ocidental como na peça Madame de Sade em que procura ver o Marques de Sade através de olhos femininos.

Sua primeira obra de destaque foi Confissões de uma Máscara (1949) que explora a descoberta de sua homossexualidade. Escrito na primeira pessoa, conta a história da infância, adolescência e juventude de Kochan - máscara do próprio Mishima. As datas, fatos históricos, e outros dados biográficos da personagem são os mesmos de Mishima. Com um estilo quase poético a história explora o universo de pensamentos, sentimentos e visões do mundo de um jovem que descobre sua homossexualidade, descrevendo seus conflitos internos, suas tentativas de adequação na sociedade e dificuldades de conciliar o amor com desejo sexual. O livro narra um período da vida do autor que começa no seu nascimento (ele diz lembrar-se do momento em que nasceu), passando pelo período da Segunda Guerra Mundial, as bombas atômicas, até o momento em que o livro foi escrito, em 1949.

Yukio Mishima era uma personagem controversa. Tinha um lado extremamente nacionalista e nutria grande interesse pelo Japão imperial e o passado dos guerreiros samurais (apesar de viver e usufruir dos benefícios do mundo ocidental). Em 1968 ele fundou um exército privado de extrema direita com ideais fascistas: o Tatenokai (Sociedade do Escudo) com aproximadamente 100 jovens, que tinha como objetivo ressuscitar o Bushido - código de honra samurai - e proteger o imperador. No dia 25 de novembro de 1970, ele entregou aos seus editores as páginas finais de sua obra-prima O Mar da Fertilidade, uma tetralogia iniciada em 1965. Depois, invadiu com o seu exército o quartel general em Tóquio onde fez um discurso tentando convencer os militares a aderirem à sua causa. Sua tentativa de golpe fracassou. Terminado o seu discurso e vendo-se ignorado pelos militares, Mishima cometeu seppuku (suicídio ritualístico), rasgando seu ventre com sua espada diante de seus soldados.

Um filme sobre a sua vida foi produzido em 1985 por Paul Schrader, com Ken Ogata como Yukio Mishima e trilha sonora de Philip Glass.

Frans Kafka





"Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, mas espere.
Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.
Então o mundo se apresentará desmascarado.
Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés."
 Franz Kafka

Franz Kafka nasceu no dia 3 de julho de 1883, em Praga (atual República Tcheca), cidade que na época pertencia à monarquia austro-húngara. Cresceu nas influências de três culturas distintas: tcheca, alemã e judaica. Filho de uma família judia, Kafka foi oprimido em sua infância e adolescência pelo seu pai, fazendeiro abastado que se interessava apenas no sucesso material.
Estudou Direito na Universidade de Praga entre 1901 e 1906, onde conheceu Max Brod, grande amigo (seu futuro biógrafo). Começou a freqüentar os círculos literários de sua cidade, onde as opiniões críticas se identificavam muito com as de Kafka. Teve uma influência muito grande de autores como Heinrich von Kleist, Flaubert, Pascal e Kierkgaard, além de todo o ambiente de Praga, na época uma cidade medieval gótica, com elementos eslavos, alemães e de barroco sombrio. Logo após sua formação, empregou-se como inspetor de acidentes de trabalho.
Sempre teve muito êxito nos cargos que trabalhara, mas se sentia frustrado por não conseguir dedicar mais tempo à literatura que adorava. Teve uma vida emocional conturbada com noivados e amores infelizes, mantendo durante toda sua vida a companhia da solidão.
Kafka se destacou pela sua narrativa que obedece à "necessidade de naturalizar", pela lucidez, o absurdo da situação descrita. Em suas obras, Kafka centraliza todas as coisas que tornam difícil viver em nossa época, onde as organizações e as estruturas em vez de atuarem em prol da pessoa humana, contra ela se colocam. E o faz de modo alegórico, imitando a linguagem onírica, como se tudo não passasse de um pesadelo, mas que é uma realidade, contendo, entretanto, um sentido simbólico, uma analogia com situações reais, absurdas, incompreensíveis, que por vezes se configuram no curso de nossa vida cotidiana.
Sua única obra publicada em vida foi A Metamorfose, onde o autor expõe sua resignação pela vida cotidiana com um toque de surrealismo. Escreveu inúmeros contos, mas nunca chegou a publicá-los, achando que a sociedade da época não aceitaria suas idéias de bom grado.
A partir de 1917, Kafka permaneceu muitos períodos em repouso por razão da tuberculose que lhe atacara vorazmente. Em 1922, largou definitivamente seu emprego e passou a viver em sanatórios e balneários. No dia 3 de junho de 1924, morre Franz Kafka em Kierling, perto de Viena.
Suas obras-primas foram publicadas após sua morte por seu amigo Max Brod, e repercutem até hoje na literatura mundial, são elas O Processo e O Castelo. As instruções do escritor eram claras: destruir toda a sua ficção impressa (exceto o livro Contemplação), seus artigos publicados em jornal e também seus manuscritos. Brod não atendeu a essas exigências e, graças ao seu empenho em preservar os escritos do amigo, hoje conhecemos uma das mais importantes realizações literárias do século XX.
Suas obras tiveram grande influência em movimentos artísticos como o surrealismo, o existencialismo e o "Teatro dos absurdos", e até hoje é considerado um dos grandes gênios da literatura universal.

Nossa Senhora do Silêncio vista da janela do nosso quarto




Lua, lua, lua, lua
Por um momento meu canto contigo compactua
E mesmo o vento canta-se
Compacto no tempo
Estanca
Branca, branca, branca, branca
A minha, nossa voz atua sendo silêncio
Meu canto não tem nada a ver com a lua.
                                                                         Caetano Veloso

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Caetano Veloso - Terra




Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

Ninguém supõe a morena
Dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema
Mando um abraço prá ti
Pequenina como se eu fosse
O saudoso poeta
E fosses a Paraíba...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

Eu estou apaixonado
Por uma menina terra
Signo de elemento terra
Do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza
Terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...

De onde nem tempo, nem espaço
Que a força mãe dê coragem
Prá gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas do nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Na sacada dos sobrados
Da velha são Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito...

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Terra!

Bom dia


Logo de manhã... BOM DIA!!!

Um dia quero mudar tudo, No outro eu morro de rir,
Um dia tô cheia de vida, No outro não sei onde ir,
Um dia escapo por pouco, no outro não sei se vou me livrar,
Um dia esqueço de tudo, no outro não posso deixar de lembrar,
Um dia você me maltrata, no outro me faz muito bem,
Um dia eu digo a verdade, no outro não engano ninguém,
Um dia parece que tudo tem tudo prá ser o que eu sempre sonhei,
No outro dá tudo errado e acabo perdendo o que já ganhei ...

Um dia eu sou diferente, no outro sou bem comportada,
Um dia eu durmo até tarde, no outro eu acordo cansada,
Um dia te beijo gostoso, no outro nem vem que eu quero respirar,
Um dia quero mudar tudo no mundo, no outro eu vou devagar
Um dia penso no futuro, no outro eu deixo prá lá,
Um dia eu acho a saída, no outro eu fico no ar
Um dia na vida da gente,
Um dia sem nada de mais...
Só sei que eu acordo e gosto da vida!!!
Os dias não são nunca iguais!
Logo de manhã... BOM DIA!!!

     Swami Jr / Paulo Freire

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Anaïs Nin




Anaïs Nin é um símbolo amplamente reconhecido da literatura erótica.

Anaïs Nin nasceu em Neuilly, perto de Paris, no ano de 1903.
No ano de 1923, Anaïs Nin casa-se com Hugo Guiler, um homem com boa posição num banco internacional. Anaïs Nin passaria a ter uma vida confortável, com tudo aquilo com o qual qualquer mulher sonha. Um ano depois de se terem casado, Anaïs e Hugo mudam-se para Paris. Passando por diversos apartamentos, finalmente o casal encontrou uma casa ampla e bonita, embora Anaïs chegasse a viver por um tempo numa casa-barco.

Hugo e Anais abriram as portas da sua casa a diversos artistas, entre eles Henry Miller, com o qual Anais viveu um romance.

Deste romance é de realçar a existência de inúmeras cartas entre os dois amantes, que durante anos trocaram correspondência, revelando o teor desses mesmos registos fatos importantes da relação que uniam Anaïs a Henry. A vida de Anaïs passaria, mais tarde, a estar dividida entre Nova Iorque e Los Angeles, entre Hugo e Rupert, um amante bem mais novo.

Por esta altura, e após ter começado a escrever no momento em que viajou com a sua mãe e irmãos para Nova Iorque, Anaïs passaria a ser reconhecida no âmbito da literatura. Os seus diários percorriam os olhos de todos, bem como as suas novelas e poesias, ambas num estilo surrealista e particularmente erótico. O erotismo que deixava transparecer nas suas palavras fascinava os artistas da época, muitos deles seus amigos, e a sua escrita oferecia também uma sensibilidade e percepção muito especial.

Ainda que começasse a escrever muito cedo, Anaïs dedicou-se à escrita erótica por volta de 1940, embora a escritora afirmasse que os contos que escrevia eram encomendados por um coleccionador. Do primeiro livro de Anaïs, um ensaio sobre o escritor inglês D. H. Lawrence, Anaïs passaria, algum tempo depois, a dedicar-se ao erotismo literário.

De salientar que a passagem de Henry Miller na vida de Anaïs teve uma importância extrema, e apesar do relacionamento que mantinha com ele, consta-se também que a própria Anaïs esteve envolvida sexualmente com a mulher de Henry, June.

Uma mulher heroína para alguns, por ter exposto a sua sexualidade e intimidade sem pudor algum, mas também considerada uma mulher sem escrúpulos, a verdade é que Anaïs Nin cultivou em vida e em morte inúmeros leitores e aplausos. Faleceu em 1977, mas recebeu anos antes honras especiais do Colégio de Arte de Filadélfia, em 1973, e do Instituto Nacional de Artes, em 1974.


 

Obras
Em busca de um homem sensível
Henry & June
Pequenos pássaros
A casa do incesto
Uma espiã na casa do amor
Fome de amor
Diários Íntimos
Delta de Vênu

Trechos do diário de Anaïs Nin

O erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios, tão indispensável como a poesia.

A única anormalidade é a incapacidade de amar.

O único transformador, o único alquimista que muda tudo em ouro, é o amor.
O único antídoto contra a morte, a idade, a vida vulgar, é o amor.

A vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo.

Não vemos as coisas como são: vemos as coisas como somos.

Imaginei por um momento um mundo sem Henry. 

E jurei que no dia que perder Henry, eu matarei minha vulnerabilidade, minha capacidade para o verdadeiro amor, meus sentimentos, com a devassidão mais frenética. 
Depois de Henry não quero mais amor. {…} 

Depois de não ver Henry por cinco dias por causa de mil obrigações, não pude suportar. Pedi a ele para se encontrar comigo durante uma hora entre dois compromissos. Conversamos por um momento, então fomos para um quarto do hotel mais próximo. Que necessidade profunda dele. Só quando estou em seus braços as coisas parecem direitas. 

Depois de uma hora com ele, pude continuar o meu dia, fazendo coisas que não quero fazer, vendo pessoas que não me interessam.
"As carícias da noite anterior
haviam sido intensamente maravilhosas,
como todas as chamas multicolores
de um engenhoso fogo de artifício,
irrupções de sóis e neons
explodindo no interior do corpo,
velozes cometas
dirigidos a todos os centros de prazer,
estrelas cadentes de profundas alegrias..."


"Há certas leituras que nos fazem tomar consciência de que nada vivemos, nada sentimos, nenhuma experiência temos.
Só agora me dou conta de como as minhas experiências eram pura e simplesmente mecânicas, anatomicas.
Os sexos tocavam-se, confundiam-se, sem provocar qualquer faísca, qualquer sensação, qualquer perturbação.
Como vir a conhecer tudo isto? Como poderei eu começar a sentir - a sentir mesmo?
Gostava de ficar tão apaixonada que só de ver ao longe o ser amado me sentisse abalada, trespassada, sem forças, ficasse a tremer e a derreter-me toda entre as pernas.
Eis como eu gostaria de amar, tanto... que só de pensar no objeto amado...

atingisse o orgasmo."

                                                                                Anaïs Nin

                                                                                           





quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Rio Antigo, Confissões de um assassino da Belle Époque, de Anatole Jelihovschi


De que forma uma experiência traumática pode marcar a vida de uma pessoa e forjar sua personalidade? No surpreendente Rio Antigo, Confissões de um assassino da Belle Époque, o escritor Anatole Jelihovschi dá voz ao frio, calculista e manipulador Afonso, um sujeito arredio e fechado que tem prazer com a crueldade e se alimenta da dor e do sofrimento alheios. Uma sede de sangue construída por um episódio impactante: o assassinato da mãe pelo pai, que se matou logo em seguida ao homicídio. Dono de uma prosa elegante e fluida, o autor apresenta  pelos olhos do protagonista  a transformação de Afonso em serial killer a assombrar nos primeiros anos do século XX o Rio de Janeiro, testemunha e palco de seus crimes. Contrapondo a trajetória de um garoto fadado a "monstro" e o Rio sonhando ser a "Paris dos trópicos", em meio ao fervor da reforma urbana do prefeito Pereira Passos.

Trecho:
"Nehuma emoção guardo da vida. Nesse momento, em que o vazio dentro de mim se tornou maior do que a morte, nada restou capaz de refazer a ilusão da existência. Ao contrário, entrego-me inteiramente ao vácuo que cobre o céu e em cujo regaço minha vida desaparacerá. Vivi da mesma maneira que em breve morrerei; na mais completa indiferança a tudo, à exceção da volúpia de sangue.
Na miséria vivi, e onde não a encontrei, provoquei-a. Minha vida só existiu no sofrimento que causei às pessoas e no sangue que derramei."

FESTIVAL DO RIO 2010 EM IMAGENS


DES HOMMES ET DES DIEUX de Xavier Beauvois
 
LES AMOURS IMAGINAIRES de Xavier Dolan


BON APPÉTIT de David Pinillos

A SUPREMA FELICIDADE de Arnaldo Jabor

A WOMAN, A GUN AND A NOODLE SHOP de Zhang Yimou
 
COPACABANA de Mark Fitoussi


KÓNGAVEGUR de Valdís Óskarsdóttir


THE LAST STATION de Michael Hoffman

COMO ESQUECER de Malu Di Martino

VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS de Woody Allen

HA' MESHOTET de Avishai Sivan
THE RUNAWAYS de Floria Sigismondi


KABOOM de Gregg Araki

THE KILLER INSIDE ME de Michael Winterbottom


Perdi o Sono



Perdi o sono. A paciência anda curta. Tô desaprendendo uns óbvios. Logo eu, que falo tanto neles. Eu tenho medo de perder o brilho. Eu tenho uns medos intensos, que não são permanentes, mas quando aparecem, me surpreendem e me tremem o chão. Queria que você me ouvisse. Não queria que lesse. Queria conversar com você. Eu sinto falta de conversar no plano real. Sem cenas, sem pensar que a gente está falando de uma coisa e fingindo que estamos falando de outra. De dizer assim olha, eu tô me sentindo um merda hoje. E eu nem deveria me sentir assim. Mas eu... Não me abandone não. Quando eu começar a perder as cores, me sacode, me dá um soco, um tapa na cara, não me deixe ir com todos os outros. Eu não tenho planos de romper com a minha palavra. Não tenho coragem nem de ir ao dentista, a uma porra de um dentista. Fiquei uma semana em casa sem trabalhar por simples falta de vontade de encarar o cotidiano que ás vezes parace corroer meus sonhos.
Você sabe impressionar. Eu sei que você sabe que sabe. Você recebe bem, você faz com que as pessoas se interessem por você. Essa é uma característica linda sua. Você marca. Você causa um impacto. Deixa um rastro sutil. Daí eu tava pensando que no dia à dia, você não age dessa forma. No dia à dia, você é você. Sem a preocupação de ter que mostrar esse homem misterioso, educado e inquieto, refinado e metido. Eu não sei bem ainda se essas pessoas que participam dos teus dias te escolhem como amigo e enfrentam o que eu chamaria de 'luta' para permanecer sem cair fora do barco – e eu quero te elogiar aqui, juro que não estou fazendo o louco e entrando numa de te ofender – ou se é você quem escolhe as pessoas e vai, da tua maneira, sem dar nome aos bois, depositando a confiança, a vida, a intimidade no teu longo tempo, sem deixar que ela abandone o barco, remando junto, muitas vezes. Não sei. De repente, é uma junção dos dois. Eu perdi o sono. E tenho essa sensação latejando de que eu preciso, na verdade, encontrar alguma coisa que eu não sei o que é. E eu lembro da Camille Claudel que eu revi ano passado e a Isabele Adjani dizia que 'existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta', acho inclusive se não falha a memória que existe uma placa na casa onde ela viveu em Paris, com essa frase. O Caio Fernando Abreu fez uma crônica sobre essa passagem. E foi ele quem me instigou para que eu entrasse em contato com essa mulher.
O fato, moço, é que eu sinto sim a falta do real entre nós. E eu insisto de verdade que não quero e não vou te cobrar uma pessoa que você não é. Eu só estou respeitando a pessoa que eu sou. De dizer as palavras. De dar nome. Porque dando um nome, pintando com as cores, eu me sinto mais seguro e menos louco. Eu quero acordar amanhã e olhar a paisagem de Santa Teresa e te ouvir e dizer de verdade que eu estou feliz de te ouvir. E essa coisa da imagem que representa é muito confusa e bonita. Muitas pessoas me perguntam sobre você. Me associam ao teu universo e deve ser comum, afinal são dez meses e tantas pessoas em comum. Eu não sei se elas têm medo de se aproximar de mim. Eu não sei se sou desinteressante o suficiente para que elas anulem a minha história e queiram saber da sua. Eu não sei. Eu procuro responder, satisfazer as urgências da curiosidade alheia, sem muitos detalhes. Eu não vou terminar dizendo que eu te amo, porque isso não se diz. Eu queria muito que você respeitasse esse desabafo porque ele é muito simples. E mais que tudo, embora confuso, ele é sincero. Eu não sei viver sem você. Eu não saberia como conduzir o barco sem ter você por perto, mas eu tenho uma ponta de curiosidade de arriscar como seria. Bateu forte essa sensação sem nome. E acho que eu vou deixando de sentir, vou não me importando com as minhas questões e chega uma hora, que elas explodem de tal forma, que as palavras brincam de lâmina. Eu preciso dormir. Ou deitar apenas. Sem sonhar. Eu não sei mais o que te dizer. Mas não deixe passar em branco, como uma conversa pela metade. Ou um assunto sério que a gente tratou em forma de metáforas. Ou raras palavras. Queria chorar esse choro preso. E voltar a me encaixar no humor que nos guia. E nos enaltece.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Who's Afraid of Virginia Woolf? - arriving home

Mariza - Chuva

Acho que não há nada a falar. Apenas ouvir e lembrar de Lisboa:

Murilo Mendes



Estudo para um caos


O último anjo derramou seu cálice no ar.
Os sonhos caem na cabeça do homem,
As crianças são expelidas do ventre materno,
As estrelas se despregam do firmamento.
Uma tocha enorme pega fogo no fogo,
A água dos rios e dos mares jorra cadáveres.
Os vulcões vomitam cometas em furor
E as mil pernas da Grande dançarina
Fazem cair sobre a terra uma chuva de lodo.
Rachou-se o teto do mar em quatro partes:
Instintivamente eu me agarro no abismo.
Procurei meu rosto, não o achei.
Depois a treva foi ajuntada à própria treva.



Murilo Mendes
In: As Metamorfoses

domingo, 17 de outubro de 2010

Alvaro de Campos

      TABACARIA
    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


    sábado, 16 de outubro de 2010

    Ópera dos Vivos - Companhia do Latão


    O teatro como campo da batalha ideológica. “Ópera dos Vivos - Estudo Teatral em 4 Atos” é a mais ambiciosa das realizações da Companhia do Latão.
    Revisão crítica da cultura brasileira recente, confirma a inserção do grupo na tradição dialética do teatro de Bertolt Brecht (1898-1956).
    O espetáculo fica no CCBB do Rio até o dia 7 de novembro e tem estreia prevista em SP para janeiro do ano que vem. Suas quatro partes distintas se articulam como uma unidade coerente, que é consubstanciada pelo talentoso grupo de atores e músicos, responsável por carrear um público atento através de vários espaços cênicos com formas teatrais distintas.
    Se há um tema central é a ânsia do grupo por uma maior politização do teatro na perspectiva de uma arte resistente à mercantilização cultural. Para isso, revisita-se a experiência de artistas que, no passado, engajaram suas vidas e obras na luta política.
    O primeiro ato -”Teatro”- remete ao final dos anos 1950, em Pernambuco, quando, a partir das “sociedades mortuárias” - associações criadas pelos lavradores para garantir-lhes caixões em seus enterros- emergiram as Ligas Camponesas. A forma da encenação emula os espetáculos do Centro Popular de Cultura da UNE e do Teatro de Arena com uma exposição didática dos mecanismos de opressão.
    Se uma das marcas do Latão, no seu início, era a recusa dessa forma canônica do teatro engajado, caracterizada por atores perfilados e de punhos cerrados olhando o público nos olhos e denunciando a exploração em canções tocantes, agora ela é assumida como exercício de estilo e homenagem, compondo o painel revisionista pretendido. Esboça-se a imagem do que morre de pé.
    O segundo ato -”Cinema”- é, literalmente, um filme que dialoga com um dos clássicos do cinema novo, “Terra em Transe” (1967), de Glauber Rocha. Os atores e os personagens que encarnaram antes se desdobram em um novo contexto temporal e no registro da alegoria próprio ao cinema glauberiano.
    Invertendo-se a trama do filme original, o protagonista é um banqueiro que flerta com as ideias de esquerda e acaba assumindo a defesa de sua própria classe, a burguesia. Aqui o tempo está metaforicamente morto.
    O terceiro ato da “Ópera dos Vivos”, da Companhia do Latão - “Música Popular”-, debate com Roberto Schwarz a leitura crítica que este fez, nos anos 1960, do tropicalismo, como uma tendência conformista por trás de fachada ultramoderna.
    Os personagens participam do show de Miranda, cantora de protesto famosa que reaparece depois de três anos em coma e estranha os novos valores em voga.
    Em diálogo com a estética do show de MPB, é a parte em que o eixo ideológico revela-se mais vulnerável.
    A formalização cênica da tese de Schwarz soa caricata e anacrônica e a revisão crítica configura mais um revanchismo contra os tropicalistas do que um olhar distanciado. A cultura, agora, tornou-se um privilégio de mortos-vivos.
    O quarto e último ato -”Televisão”- atualiza a discussão e articula os anteriores, dando um sentido claro ao todo. Nele, a dramaturgia e a encenação de Sérgio de Carvalho alcançam alta densidade dramática partindo de situação emblemática da produção cultural hoje.
    No estúdio de uma grande rede de televisão, é o último dia de gravação de uma série.
    Alguns personagens dos atos anteriores confrontam seus descendentes, o que é emblemático do próprio diálogo do grupo com a geração anterior. A ideia do “morrer de pé” reaparece, agora como projeto de luta.
    A Cia. do Latão cumpriu com esse largo espetáculo o seu objetivo de testar formas de representação realista nas condições adversas de “um mundo que desmorona”.
    Mais difícil é aceitar a tese, insistentemente reiterada, de que a soberania da “forma mercadoria” sobre tudo e todos nos condena à morte em vida. A ideologia pesa e constrange a razão a minimizar as potências anímicas desse belo exercício cênico.

    sexta-feira, 15 de outubro de 2010



    "É vista quando há vento e grande vaga
    Ela faz o ninho no rolar da fúria
    E voa firme e certa como balaAs suas asas empresta à tempestade
    Quando os leões do mar rugem nas grutas
    E sobre os abismos passa e vai em frente
    Ela não busca a rocha, o cabo, o caisMas faz da insegurança sua força
    E do risco de morrer seu alimento
    Por isso me parece imagem justa
    Para quem vive e canta no mau tempo ."
                                 
    Sophia de Mello Breyner Andresen

    quinta-feira, 14 de outubro de 2010

    Lady Gaga por Marcia Tiburi

    
    Lady Gaga: ninfa pós-feminista

    Lady Gaga é o mais recente ídolo pop da cena internacional. Entenda-se por ídolo pop um indivíduo que encanta as massas com a habilidade artística de que é capaz sendo seu autor ou o mero representante de uma estética inventada por publicitários e estrategistas de produtos culturais. Nesse sentido, todo ídolo pop age como o flautista de Hamelin conduzindo por certo efeito de hipnose uma quantidade sempre impressionante de pessoas. Ele é também um guia estético e moral das massas. A propósito, entenda-se por massa um grupo de indivíduos que, ao se encontrar com outros, perde justamente a individualidade, tornando-se sujeito de sua própria dessubjetivação. Em outras palavras, ele é hipnotizado como se estranhamente desejasse sê-lo.
    A obra da jovem Lady Gaga não é objeto descartável como a maioria das mercadorias promovidas no contexto da indústria e do mercado cultural. Se nos detivermos em sua música, em sua dança ou em sua imagem isoladamente, não entenderemos o todo da mercadoria. Portanto, é preciso estar atento à performance que ela realiza. A apreciação disto que devemos hoje chamar de obra-produto ou produto-obra deve começar por aí, tendo em vista que, acima de tudo, Lady Gaga é uma performer que agrega em seus vídeos diversas formas artísticas que vão da música ao cinema, passando pela dança e chegando a uma relação curiosa com um aspecto inusitado da produção contemporânea nas artes visuais. Lady Gaga tange em seus vídeos mais famosos questões que estão presentes na obra de artistas contemporâneas que podemos chamar de vanguardistas por falta de expressão melhor, tais como Cindy Sherman, Daniela Edburg e Chantal Michel. No Brasil, Karine Alexandrino, Paola Rettore ou o pernambucano Bruno Vilella praticam a mesma suave ironia até o mais cáustico deboche com trabalhos sobre mulheres mortas.
    O tema da mulher morta torna-se quase um lugar-comum na arte contemporânea, como foi no século 19. Naquele tempo, ele representava o impulso próprio do romantismo que via na mulher falecida e inválida um ideal agora retomado de modo irônico por diversas artistas contemporâneas. Lady Gaga vai, no entanto, muito além dessas artistas em termos de coragem feminista. Enquanto elas zombam das mulheres estereotipadas que morrem como Ofélias por um homem, Lady Gaga, de modo mais surpreendente e corajoso do que importantes artistas cultas, dá um passo adiante.
    No vídeo de “Paparazzi” fica exposto o amor-ódio que um homem nutre por uma mulher, a invalidez à qual ela é temporariamente condenada por sua violência e, por fim, uma vingança inesperada com o assassinato desse mesmo homem. “Incitação à violência”, pensarão as mentes mais simples; “feminismo como ódio aos homens”, dirá a irreflexão sexista acomodada, quando na verdade se trata de uma irônica inversão no cerne mesmo do jogo simbólico que separa mulheres e homens. Se em “Paparazzi” o deboche beira o perverso autorizado psicanaliticamente (a mulher sai da posição deprimida ou melancólica e aprende a gozar com seu algoz, que ela transforma em vítima), em “Bad Romance”, “o vídeo mais visto de todos os tempos”, mulheres de branco – como noivas dançantes – surgem de dentro de esquifes futuristas para curar uma louca que chora querendo ter um “mau romance” com um homem. Um contraponto é criado no vídeo entre a imagem do rosto da própria Gaga levissimamente maquiado, demarcando o caráter angelical de sua personagem, em contraposição ao caráter doentio da personagem da mesma Gaga de cabelos arrepiados e olhos esbugalhados. Entre eles a bailarina sensual junto de suas companheiras faz o elogio do corpo que é obrigado a se erotizar diante de um grupo de homens.
    A noiva é queimada. Sobre a cama, no fim, a noiva como um robô um pouco avariado, mas ainda viva, contempla o noivo cadáver. A ironia é o elogio do amor-paixão, do amor-doença e morte ao qual foi reduzido o amor romântico pela estética pop da ninfa pós-feminista. O feminismo só tem a agradecer.
    Em “Telephone”, a estética eleita é a da lésbica e da pin-up. Ambas criminosas. A primeira por ser uma forma de vida feminina que dispensa os homens, a segunda por ameaçá-los com uma estética da captura (a mulher-imagem-de-papel, a mulher “cromo”, a mulher-desenho-animado que configura o conceito do “broto”, do “pitéu”). No mesmo vídeo o personagem de Gaga compartilha com Beyoncé uma cumplicidade incomum entre mulheres.
    Esse sinal é dado no meio do vídeo, quando Beyoncé vai resgatar Gaga na prisão e ambas mordem um pedaço de pão, que logo é lançado fora como algo desprezível. A comida mostra-se aí como o objeto do crime. O vídeo é mais que um elogio ao assassinato do mau romance, ou da vingança contra o evidente amor bandido de quem a personagem de Beyoncé quer se vingar. Trata-se de uma profanação da comida pelo veneno que nela é depositado. O amor bandido é morto pela comida, uma arma simbólica muito poderosa associada à imagem da mulher-mãe, da mulher-doação, dedicada a alimentar seu homem na antipolítica ordem doméstica.
    O palco é a lanchonete de beira de estrada como em Assassinos por Natureza, de Oliver Stone. O assassinato é o objetivo do serviço das duas moças perversas que, no fim do vídeo, dançam vestidas com as cores da bandeira norte-americana – meio Mulher Maravilha – diante dos cadáveres de suas vítimas, já que, além do amor bandido, todos morreram. Cinismo? Sem dúvida, mas como paradoxal autodenúncia.
    Mas o maior crime de Gaga, aquilo que fará com que tantos a odeiem, não será, no entanto, o feminismo sem-vergonha que ela pratica como uma brincadeira em que o crime é justamente o que compensa? E, como ídolo pop, não poderá soar aos mais conservadores como um modo de rebelar as massas de mulheres subjugadas pela perversa autorização ao gozo, doa a quem doer?
                                                               
    Marcia Tiburi-   Revista Cult - Edição 146