O que um filme como “A Vida dos Outros” (Alemanha/2006), de Florian Henckel von Donnersmarck tem a ver com “Central do Brasil”(1998) de Walter Salles? A relação de Salles com os road movies de Wim Wenders, cineasta de anos áureos do cinema alemão em que tínhamos Fassbinder, Schlöndorff, Kluge, Herzog e outros, é conhecida. Mas com o novato Florian o que há é uma identidade que não é formal e sim de visão ética do mundo. Ambos acreditam em transformações benignas do caráter humano mesmo em situações bastante adversas.
Em “Central do Brasil” acompanhamos a humanização da professora aposentada Dora que de trambiqueira que explorava analfabetos passa paulatinamente a ser, não sem oscilações, uma mãe substituta sensível de um garoto que corre risco de vida e quer juntar-se à família no Nordeste (um argumento que nos lembra, em parte, “Glória” (1980) de John Cassavetes). Em “A Vida dos Outros” somos testemunhas das transformações por que passa um rígido e profissional torturador, professor e espião da temida Stasi (polícia secreta da antiga República Democrática Alemã que contava com 100 mil membros oficiais e 200 mil informantes numa população de 17 milhões de pessoas) que invade e observa a vida de um escritor e sua namorada que é atriz.
No universo da Literatura o mais célebre personagem em que ocorre uma grande transformação espiritual é o Raskolnikoff de “Crime e Castigo” de Dostoiévski que de assassino convicto de uma velha usurária que desprezava, passa por intensa e dolorida busca, antes de qualquer coisa, por perdão a si mesmo. “A Vida dos Outros” não tem esta densidade filosófica e existencial. Mas dentro do tema das transmutações que pode ocorrer com as almas humanas tem pontos de contacto com este monumento literário.

Para mim a sequencia chave acontece quando um dos personagens fala, depois de tocar uma sonata de Beethoven ao piano:
“Você sabe o que Lênin disse sobre a “Apassionata”? Se eu ficar ouvindo isto eu não termino a revolução. Pode alguém que ouviu esta música, que a ouviu realmente, ser realmente uma má pessoa?”
Com excelente aproveitamento da tela larga, é um thriller singular que num eixo central comunga com o estilo hitchcockiano e vai agregando camadas surpreendentes de sentidos, de 1984 até ultrapassar a glasnot de Gorbatchov e a queda do muro de Berlim em 1989, culminando num desfecho inesquecível e de grande densidade poética.
Garanto que vale a pena passar na sua locadora e alugar um filme com eficiente estrutura de conto, sem pieguices, bastante urgente numa era em que estamos nos afogando num mar de cinismos e perdendo a fé no homem e no seu processo civilizatório. Este filme é " A Vida dos Outros"
Desculpe ter sumido meu caro!
ResponderExcluirSo passei para avisar que ainda estou vivo..rs..
Abraço,
P.A.
Depois volto com calma para comentar!
ResponderExcluirAMO ♥ Central do Brasil!!! Roteiro, música, direção e principalmente a bacanérrima Fernanda Montenegro!
ResponderExcluirBj, saúde e Feliz Natal Evandro!!!
:-)
Olá, Evandro !!!
ResponderExcluirEm primeiro lugar parabéns pelo blog, mto bom mesmo, mto rico e super bem escrito!
E qto ao filme, eu amo Centrl do Brasil, todo ele em conjunto, filme pra ver, rever, qtas vezes forem. E a Fernanda, dispensa qq tipo de comentários!
Sorte e sucesso e Feliz Natal!
Abs,
Ola eu tinha um blog que seria dedicado a fragmentos dos livros que li, mas agora a proposta é colocar pensamentos dos livros que li de Clarice Lispector
ResponderExcluirTe vejo lá
http://estouvindoclarice.blogspot.com
Seu blog está cada vez melhor, sério. Tuas opiniões são sempre as melhores! A vida dos outros é muito, muito bom. E olha que enm é o 'estilo' de filme que gosto.
ResponderExcluir'Central do Brasil' é, de fato, um filme que nunca me canso de ver. Ele é fantástico. Amei a sua resenha sobre ele, meu amigo.
ResponderExcluirJá o 'A Vida dos Outros' nunca vi, mas na primeira oportunidade, farei isso ;)
Um forte abraço e tenha uma ótima semana!
Te espero lá no blog.
www.nicellealmeida.blogspot.com
Olá, sempre muito bom seu blog. Eu vi Central do Brasil e não há como negar, o filme é maravilhoso. Somado a magistral interpretação da grande Fernanda Montenegro, é um desses filmes que não se esquece jamais.
ResponderExcluirEu fui na central do Brasil, aparentemente nao e tao ruim assim
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